Saturday, December 31, 2005

Learning...

"A areia debaixo dos pés, o mar por perto, não muito distante do búzio que levava ao ouvido para ouvir as ondas. Estava a fazer o que aprendera há anos. Esquecer. Apagar tudo. Escrever de novo os pequenos parágrafos da sua história pessoal. Pintar um quadro diferente da última meia hora, desde o momento em que se virara e sorrira à pergunta «sabe dizer-me como...?» Não era fácil o trabalho de esquecer. Mal acabava de esquecer uma coisa e de a escrever a seu gosto, logo aparecia outra a precisar de correcção. E acabava sempre por chegar à única coisa em que não queria pensar - que estava a esquecer-se de quem era." In Último Acto em Lisboa, Robert Wilson

Friday, December 30, 2005

porque...não será antes porquê?

Se há coisa que me irrita é a mania que certas pessoas têm de fazer uma pergunta recorrendo a uma única palavra que, habitualmente, inicia uma resposta. Falo, obviamente, do "porque". E, ultimamente, são tantas as pessoas que o dizem: "porque?" como se fossem detentores da verdade e que esta lhes está pronta a sair da boca e só por puro obséquio é que o passam para a outra pessoa....

- Venho, por favor, solicitar a minha excomunhão

- Vem pedir o quê?

- A minha excomunhão

- porque?

A vontade que me deu foi dizer-lhe: "por certo que pretende dizer porquê e não porque, até porque é a palavra que se utiliza no início de uma resposta e não de uma pergunta...". É claro que a resposta que eu devia ter dado era que a razão pela qual solicito a minha desvinculação (oficial) a uma instituição religiosa é do meu foro privado e não diz respeito a uma funcionária administrativa. No entanto, como estou formatada para ser educada, respondi-lhe cordialmente... ainda assim, uma pergunta permanece: não deveríamos poder somente comunicar-lhes esta desvinculação? Isto até parece um casamento: ou seja: um contrato onde ambas as partes têm que concordar com a ruptura, caso contrário, o Estado decide o que ser irá fazer...neste caso, a ideia ainda é mais estranha quando sabemos que uma das partes é uma Igreja e que o Estado deve ser leigo.. ironias......

Again and again...

Em jeito de despedida da histeria das festas, em que pulamos alegremente de comemoração em comemoração, sem sabermos bem porquê nem como. Sempre a efervescência da perspectiva do novo, que já (pre)sentimos ser o mesmo. Em final de ano e início de outro (e quem consegue diferenciar?), apenas apetece ouvir palavras ditas pela fabulosa Elis Regina...
"Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu estou por fora, ou então que eu estou inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus contando o vil metal
Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais"

Thursday, December 29, 2005

Falhas...

Nunca se consegue ter tudo o que se precisa! Ontem faltavam as mortalhas.. hoje acabou-se o tabaco!!!!

Equídeos...

Hoje descobri que o meu carro tem 103 cavalos... isto até podia ser uma boa notícia.. caso não tivesse sido o funcionário da seguradora a dizer-mo, justificando que com tanto cavalo não posso querer pagar menos de seguro...tivesse eu uma quinta e trocava (de muito boa vontade) o raio do carro por cavalos de verdade...

Wednesday, December 28, 2005

The Hours

Horas e horas em frente a um ecrã que vai mudando de cores. Horas a fio… correndo pelos sentido das letras e dos espaços. Espaços em redondo na espiral dos dias. A velocidade que nunca parece ser suficiente. O nada que nunca parece ter fim. O tudo que já preencheu o vazio e que ocorre a cada mês. Os santos que nada nos dizem. As imagens que mentem. Os animais perdidos e um feeling que se pode ter tudo a qualquer instante… mesmo aqui. No instante a seguir.. já a seguir. Os ensaios… numa vã esperança de que algo mude os padrões riscados de tanto se repetirem. A água que escorre pelas paredes e que encharca os pensamentos de terror. O fogo que percorre a casa sem consumir o recheio do medo. O nada de nada. O vazio que açambarca a mente, que tolhe os pensamentos e que os engole num ápice. O abismo ali ao lado. Tão perto que não parece real. E o frio… esse frio que não passa. O frio que se instala e que congela as acções para que não se apaguem.

Diálogos Quotidianos

- Tens que decidir o que queres fazer...
- Estou com algumas dificuldades em tomar decisões neste momento...
- Há decisões que nunca são fáceis...
- A minha mãe tem um cancro e eu quero estar ao pé dela.. ao mesmo tempo sinto que preciso de sair daqui.

Sunday, December 25, 2005

Desejos

... quero este livro....

Friday, December 23, 2005

Lilja 4-ever

E ainda a propósito do tema, baseado numa história verídica - a de Dangoule - uma adolescente traficada para a Suécia, que acaba em suicídio. Dos filmes mais belos e humanos que já vi. Um murro no estômago que me fez olhar para espaços como o Elefante Branco e o Hipópotamo de outra forma. Dos poucos filmes onde vi uma prostituta ser retratada como um Ser Humano. No entanto, esta história não invalida as de outras que optaram mesmo por uma profissão considerada pouco digna. Para saber mais sobre o filme: http://www.lukasmoodysson.com/

E atenção...

Não, não me estou a esquecer das milhares de pessoas que são forçadas a prostituir-se: mulheres, homens e crianças. Não, desses não me esqueço. Mas isso tem outro nome: escravatura, sequestro, rapto, exploração sexual de menores, lenocínio, violação, coacção, tráfico de pessoas.. e uma lista que não termina aqui.. infelizmente. Não me esqueço das palavras da mesma Inês Fontinha num colóquio sobre tráfico de mulheres e que eu aqui adapto: "o corpo humano pode ser vendido vezes sem conta". Mas isto são situações totalmente distintas das que as pessoas que defendem a legalização contam. Se há homens e mulheres que querem vender o seu corpo prestando serviços sexuais ao invés de outros serviços... será que devemos mesmo continuar a virar a cara ao lado?

É ou não uma questão de moralismo?

"Vocês acham sempre que as mulheres não se podem relacionar com o corpo de outra forma que não ligada aos afectos. Mas há mulheres que conseguem. E que se relacionam com o seu corpo de uma forma menos convencional ou considerada menos correcta. Não é verdade que as prostitutas não sejam amadas e que tenham uma baixa auto-estima. Não há nada que distinga estas mulheres das outras. Elas têm maridos e namorados como as outras. São amadas e há dias em que a sua auto-estima é boa outras em que não", foi a resposta de Alexandra Oliveira, psicóloga e investigadora, a Inês Fontinha - presidente do Ninho (associação que trabalha com prostitutas).

Contextualizemos a frase. Foi dita num debate na SIC Notícias, ontem, sobre as vantagens/desvantagens da legalização da prostituição. A presidente do Ninho (Inês Fontinha) e a jurista Maria Braga da Cruz são abolicionistas - que é como quem diz: legalização nem pensar, as pessoas que se prostituem são vítimas e é impensável a legalização de uma actividade degradante. Alexandra Oliveira e Ana Lopes - doutorada em antropologia, com uma tese sobre os trabalhadores do sexo, e ela própria trabalhadora do sexo e fundadora do Sindicato destes trabalhadores no Reino Unido defendem a legalização, nesta perspectiva: existe uma indústria que gere muito dinheiro, não reconhecer os direitos e deveres e a existência destes trabalhadores - não os defender é negar-lhes direitos humanos. Vamos então por partes e comecemos pela legislação. Em Portugal, e até 1974, a prostituição era regulamentada e legal. Desde que praticada em locais próprios sujeitos a fiscalizações (vulgo casas de passe e de alterne - embora alterne e prostituição sejam coisas distintas). Durante muito tempo achei que a esta actividade deveria ser legalizada e que os seus trabalhadores deviam pagar impostos, ter direitos sociais - inclusive subsídio de desemprego e reforma como qualquer trabalhador. No entanto, no Portugal do Estado Novo, a legalização da prostituição tinha os seus quês... uma mulher só era considerada maior a partir dos 21 anos, mas podia dispor do seu próprio corpo a partir dos 16 (não é preciso recordar que uma mulher adulta tinha que ter autorização do marido para poder viajar para fora do país, e para exercer certas profissões, já para não falar da interdição de outras - tais como as carreiras diplomática ou a magistratura). Somente as prostitutas eram sujeitas a fiscalização de saúde e a multas - os clientes não, o que convenhamos.. não ajuda muito a controlar o que quer que seja (lembremo-nos que um dos grupos mais afectados com SIDA é o das mulheres casadas). Infelizmente ainda há muitos homens que não sabem o que é ser responsável pelos seus actos sexuais e como tal acham que isso deve ser deixado ao cuidado do outro. Por outro lado, há um problema social com a questão dos impostos - sim, não estão a ver os clientes do Elefante Branco a levar um recibo para casa por "serviços sexuais", pois não....? O controlo financeiro será difícil - mas que isso não sirva de argumento, pois o controlo fiscal nunca foi eficaz em Portugal.

à frente... não estou com isto a dizer que todas as prostitutas querem sê-lo. Inês Fontinha, que trabalha com prostitutas há 38 anos só conhece os casos de pessoas que se viram forçadas a recorrer a esta actividade e que não se sentem bem com essa opção. Naturalmente... uma pessoa que recorra à prostituição de livre vontade e que se sinta bem com isso (ou pelo menos que não lide mal com o assunto) não precisa do Ninho para nada. Por isso, dos outros casos não pode falar. Mas foi a mesma Inês Fontinha que disse algo que me pôs a pensar. Citando um caso de uma mulher que testemunhou ter optado pela prostituição de livre vontade, porque tinha quatro filhos e não tinha dinheiro para os sustentar. O ordenado que recebia não era suficiente... (bom, a história comum da mulher que precisa de comer... ou de alimentar alguém). "Acha que isto é o discurso de alguém que pode optar? Como é que se pode deixar que num país haja alguém tenha que recorrer à prostituição para poder alimentar-se?", arregalava a presidente do Ninho. Pergunta: será que não é o mesmo que dizer: como é que se pode deixar que num país um(a) licenciado tenha que trabalhar numa fábrica a fazer trabalhos repetitivos, sem qualquer margem de autonomia, a ganhar doenças de trabalho devido à força da repetição das tarefas e a ganhar o ordenado minímo, e muitas vezes a ser sujeito a assédio sexual? Qual é a diferença? Ou melhor... a pergunta honesta deveria ser: como é que se permite que em qualquer parte do mundo, alguém se sujeite a trabalhar - seja no que for, sem o minímo de condições de salubridade? Fazendo com que a pessoa se sinta mais do que explorada, usada?

Será que a diferença não reside mesmo no contrato de trabalho? Nos direitos sociais - e legais - que um tem e o outro não? Será que a reacção de Inês Fontinha face à situação de alguém que se prostitui porque não ter dinheiro não se prende antes de mais com questões morais? Por muito que considere profundamente degradante alguém ter que pagar por sexo - acho que há sempre alguém disponível, ter que pagar por sexo é não acreditar na sua própria capacidade de sedução - não deixo de sentir que há muito mais de moralismo do que de humanismo face a esta questão da prostituição.

Não que a legalização fosse resolver os problemas. Pois não, já o sabemos pela experiência de outros países. Somente a Suécia pune os clientes. Ou seja, um(a) cliente pode mesmo ir parar à prisão por recorrer aos serviços de prostituição. O que me parece bem. Isto numa perspectiva de: se a prática é punida então o consumo também tem que o ser. A história de proibir a pesca de peixe com tamanho inferior a X mas de legalizar a sua venda/compra sempre me soou a um cinismo ridículo.. querem enganar quem?

Thursday, December 22, 2005

É Natal

A tod@s vós, a quem gosta e a quem não gosta do Natal, desejo uma época feliz e um novo ano cheio de sucessos.

Wednesday, December 21, 2005

Meatrix

Merece ser visto.Até ao fim.

Paragem, Zona

Tragam-me esquecimento em travessas!

Quero comer o abandono da vida!

Quero perder o hábito de gritar para dentro.

Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta...

Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?

Viver amanhã por ter adiado hoje?

Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?

Álvaro de Campos (1930)

Álvaro de Campos

FAZE AS MALAS PARA PARTE NENHUMA!

Embarca para a universalidade negativa de tudo

Com um grande embandeiramento de navios fingindos -

Dos navios pequenos, multicolores, da infância!

Faze as malas para o Grande Abandono!

E não esqueças, entre as escovas e a tesoura,

A distância policroma do que se não pode obter.

Faze as malas definitivamente!

Que és tu aqui, onde existes gregário e inútil -

E quanto mais útil mais inútil -

E quanto mais verdadeiro mais falso -

Que és tu aqui?

Embarca sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!

Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?

Florbela Espanca

"São sempre os que eu recordo que me esquecem... Mas digo para mim: não me merecem...."

O tempo e eu

É por isso que gosto do meu trabalho. Vou sempre descobrindo escritos interessantes, como este, do são-tomense Aíto Bonfim:
"Apaga-se a luz, acende-se a luz, reapaga-se a luz, reacende-se a luz numa frequência tão atroz que perco toda a energia cerebral e vejo as páginas do livro do tempo arrancadas e lançadas ao vento. E quando procedo à síntese, o futuro transforma-se em passado, o passado em presente e o presente em futuro. E fraqueja-me o intelecto para coordenar tantas páginas e posicioná-las correctamente no tempo."

Tuesday, December 20, 2005

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos
- Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai
-Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte
- De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem;
da morte apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes

Monday, December 19, 2005

Palavra de Gato...

Se bem se lembram, há tempos ameacei postar de modo a que este blog fosse definitivamente considerado um blog de gajas (segundo a tabela do caro RPS, comentarista relativamente assíduo da nossa praça). Cumpri a primeira parte quando postei sobre a Adriana Calcanhoto. Prometi um post sobre a minha gata. Não o cumpro! Antes posto acerca do que outros disseram sobre gatos, que me parece bem mais engraçado.
Assim, lanço a partir deste humilde post, um petit desafio... Que comentem o seguinte excerto, retirado de um livro que recebi recentemente (saiu ontem à noite do forno, que é como quem diz, do papel de embrulho):
"Téophile Gautier considerava «o gato um animal filosófico que não dispensa as suas afeições de qualquer maneira». (...),Edmond de Goncourt pensava que era inútil comparar os filósofos aos gatos. «Estudei os dois e a sabedoria dos gatos é infinitamente superior.»"
Fotografia de Henri Cartier Bresson

Sunday, December 18, 2005

Parabéns aos Meninos da Avó! E já lá vai um ano!!

Eu, Menina da Avó me confesso, e não posso deixar de homenagear os meninos e as meninas que, nas primeiras e terceiras quartas- feiras de cada mês, se encontram para acontecer poesia. Deixo aqui o testemunho de alguém que por lá passou, esperando que sejam sempre mais e mais @s que por lá passam e não esquecem.
O primeiro aniversário de "Os Meninos da Avó" ocorre dia 21. Há que salientar o espirito de tertúlia e de amor pela palavra dita/escrita que move esse conjunto de resistentes irresistíveis nas noites longas da Casa da Avó, espaço assombrado pelos fantasmas do betão e onde os duendes da magia do poetar plantam suas flores silvestres nessas noites de Klingsor. A invasão da palavra é boa para os peitos cheios de ar(te) dos analfabetos da Alma, neste spleen de emoção e partilha. Continuem pois e tragam os bisnetos e muitos mais. Nós, alagamarenses iniciáticos também somos netos dessa Avó que em poemas se desdobra e no antever das almas alimenta sonhos e noites e dramas e estados de alma de muitos nós. Saravá pois para vós-que também são Nós-Meninos da Avó.
Fernando Morais Gomes

Saturday, December 17, 2005

Consoada

«A origem da palavra é incerta, embora tudo leve a crer que provenha do latim consolata, substantivação da forma feminina do particípio perfeito do verbo consolari “reconfortar, consolar, aliviar, compensar, fazer esquecer”, o que nos leva a concluir que a companhia de entes queridos pode ser o melhor porto de abrigo.»

In As Faces Secretas das Palavras, Edições Asa

Thursday, December 15, 2005

Memories....

Andava devagar tentando olhar as fotografias, ler as dedicatórias, pensar nas vivências dos desconhecidos.

Procurei as palavras adequadas. Ordenar os pensamentos. Reposicionar o que sentia. Lembrei-me de que afinal eu "nunca saira de ao pé dele"; pois "trazia sempre a tua foto na carteira", como me tinham contado. Agachei-me como que para lhe contar um segredo quando olhei para o monte de terra e para as flores frescas. Mas não havia nada a dizer. Não estava ali ninguém para ouvir. Nada. Sempre o nada.

Nem sei dizer porque deixei cair lágrimas por um rosto demasiado cansado. Por fim ergui-me e segui...

Tentei perceber de que forma se constróem as memórias encerradas em caixas decadentes, cheias de flores mortas e em caixotes cobertos com rendas. Tentei não me sentir esmagada por aquela sensação de vazio.

Pela pequena janela consegui ver uma caixa de música. Igual à que tenho pendurada no escritório. Tinha morrido aos seis anos. Mais à frente, uma outra onde estava um carrinho playmobil em cima da urna. "Memória eterna", "estarás sempre presente nos nossos corações", "para sempre"..... não será para sempre tempo demais para o vazio?

Quando vi o talhão islâmico senti-me melhor: crescia erva em cada túmulo. Pequenos vestígios de que ainda há vida naquele lugar.

Bom vento de navegar!

Fui espreitar as Folhinhas do Professor (Agostinho da Silva) e encontrei isto:
Queridos Amigos,
Parece que tôda a gente está de acôrdo em que o mundo inteiro se encontra em crise. Como isto me parece demasiado vasto para eu poder ser util, decidi que sou eu quem está em crise e talvez consiga sair dela com três princípios: O de me ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar. Nestes termos comunica a todos os Amigos que não imporei a ninguém a leitura de textos meus, a começar pelas Folhinhas, e que só responderei a quem me escreva, pedindo ( para aumentar o supérfluo...) que cada carta venha com selinho de resposta, mas um apenas, para me não obrigar a escrituração administrativas. Para tudo o que fordes e fizerdes rogarei perfeito empenho e boa sorte, bom vento de navegar.
Setembro de Lua Cheia e de 93.
Agostinho da Silva

Tuesday, December 13, 2005

Burgueses? Natal?

Burgueses somos nós todos ó literatos
Burgueses somos nós todos ratos e gatos
Mário Cesariny

«Mário nós não somos todos burgueses
os gatos e os ratos se quiseres,
os literatos esses são franceses
e todos soletramos malmequeres.
Da vida o verbo intransitivo
não é burguês é ruim;
e eu que nas nuvens vivo
nuvens! O que direi de mim?
Burguês é esse menino extraordinário
que nasce todos os anos em Belém
e a poesia se não diz isto Mário
é burguesa também.
Burguês é o carro funerário.
Os mortos são naturalmente comunistas.
Nós não somos burgueses Mário
o que nós somos todos é sebastianistas.»
Natália Correia

Monday, December 12, 2005

Respostas....

"Vai sair-lhe caro", li perplexa no livro que tanto me faz dar gargalhadas.
Desta vez não ri. Fiquei a pensar... que me limitei a questionar se iria encontrar as respostas que procuro e sai-me aquele disparate. Bom, se pensarmos bem, o livro até custa 16€ - pelo que até terá acertado. Mas depois, fiquei para ali a pensar que preço era esse que se cobra às pessoas que fazem questões. E as minhas, de tão banais, deveriam ter direito a respostas à borla.... como tenho feito até agora... entrando nas livrarias.. roubando um pouco da sabedoria alheia... deliciando-me com olhares furtados aos outros....

So tell the girls that I am back in town...

Nada melhor para o ego do que um regresso à escola, e em que os alunos confessam de forma ruidosa e bem disposta, a saudade(???) que a nossa ausência lhes suscitou.
E quase esquecemos, neste piscar de olho, que é tempo de avaliações. De testemunhar com o punho (de ferro?) percursos, assinalar desvios, paragens, perdas e cansaços.De novo mergulhadas em suplícios, desta vez embrulhados em cores natalícias!

Sunday, December 11, 2005

Already dead

"I try to stay awake and remember my name..."

Saturday, December 10, 2005

Hypnotize

De volta, com isto na bagagem. Vale a pena espreitar o link.

Friday, December 09, 2005

Foto: N.E.
Para que os dias sejam sempre claros.

Tuesday, December 06, 2005

Tim Burton's World....

The only place where the dead's world is more colourfull than the living one's.

Metrosexualidades... ou homens vaidosos

Quando Brad Pitt mencionou, durante uma entrevista, que usava o creme hidratante xpto (honestamente não recordo a marca), as vendas do dito produto aumentaram exponencialmente nos dias seguintes. A juntar-se a Pitt, Beckam...é outro senhor que assume que o cuidado com a imagem e com a beleza física exigem investimento de tempo e dinheiro. São eles alguns dos exemplos de metrosexualidade. Por sinal, um neologismo que já conta com dez anos. Na prática designa um homem que tem hábitos de beleza atribuídos tradicionalmente às mulheres - e aos homens homosexuais - e não tem medo de o afirmar. Ora, se estes ditos hábitos - como gastar dinheiro em roupa e em cosmética - há muito que não eram monopólio do feminino (há muito mesmo), a grande diferença está em que estes homens não receiam falar disso em público e não reagem com alergia quando se fala nesse assunto.

Esta é uma boa notícia para a indústria da cosmética, uma vez que os homens passarão a disputar com as mulheres este mercado - e com muito mais vantagens para este último, já que a maior parte da riqueza mundial está concentrada em mãos (ou carteiras e contas) masculinas. O mercado da cosmética poderia ter sido mais inteligente e ter percebido isso há mais tempo... é um facto. Mas se por um lado a metrosexualidade parece libertar os homens do estigma de que a virilidade e o masculino são incompatíveis com a saúde da pele e do cabelo, permitindo-lhes adquirir o que bem entenderem sem complexos de culpa e de vergonha (porque homem que é homem até faz a barba com água e sabão e essas coisas dos cremes é para maricas ou rabetas na versão nortenha), por outro poderá torná-los tão reféns do mercado como já as mulheres estão. Os cuidados com a pele e com o cabelo são uma questão de saúde, ou seja, de necessidade e não de vaidade. Mas é preciso lembrar que as indústrias da cosmética, das cirúrgias estéticas e das dietéticas são máquinas de fazer dinheiro que põem qualquer hipermercado num chinelo.....recorrem a mentiras utilizando-as como conhecimento científico e utilizam uma linguagem inteligível a poucos, aproveitam-se dos medos humanos e estimulam a criação de determinadas imagens que lhes convêm. Apenas recentemente, algumas marcas começaram a deixar asteriscos junto à palavra hidratante, para explicar que hidrata só até às camadas superiores da epiderme. Ou seja: vendem aspirações de saúde e juventude que na maioria das vezes não conseguem cumprir.

Por outro lado, esta mudança de hábitos e atitudes não parece ter qualquer reflexo nos papéis sociais de cada género. Ou seja, com metrosexuais ou não, as mulheres continuam a ter que vir do trabalho e cuidar das tarefas domésticas e os homens podem simplesmente ficar mais tempo a fazer compras, para chegar a casa e ainda ter tempo de pôr a máscara hidratante enquanto elas acabam de fazer o jantar. É que, no último inquérito ao Uso do tempo (em Portugal) eram já os homens dedicavam mais tempo com os cuidados consigo mesmos, contrariamente ao chavão de que são elas que demoram eternidades para sair de casa porque estão naquela panóplia de futilidades que não servem para nada...

Quarto Crescente

... o céu era negro, sem estrelas, profundo, imenso. Uma nesga pálida da Lua despontava detrás do círculo da Lua crescente. Fazia muito frio, o que não animava a separar a cara dos ombros. Poucos foram os que se deram conta.

dEUS, Aula Magna, 5 Dezembro 2005

E cantaram esta:
Nothing Really Ends
The plan it wasn't much of a plan
I just started walking
I had enough of this old town
had nothing else to do
It was one of those nights
you wonder how nobody died
we started talking
You didn't come here to have fun
you said: "well I just came for you"
But do you still love me?
do you feel the same
Do I have a chance
of doing that old dance
with someone I've been
pushing away
And touch we touched the soul
the very soul, the soul of what we were then
With the old schemes of shattered dreams
lying on the floor
You looked at meno more than sympathy
my lies you have heard them
My stories you have laughed with
my clothes you have torn
And do you still love me?
do you feel the same
And do I have a chance
of doing that old dance again
Is it too late for some of that romance again
Let's go away, we'll never have the chance again
You lost that feeling
You want it again
More than I'm feeling
you'll never get
You've had a go at
all that you know
You lost that feeling
so come down and show
Don't say goodbye
let accusations fly
like in that movie
You know the one where Martin Sheen
waves his arm to the girl on the street
I once told a friend
that nothing really ends
no one can prove it
So I'm asking you now
could it possibly be
that you still love me?
And do you feel the same
Do I have a chance
of doing that old dance again
Is it too late for some of that romance again
Let's go away, we'll never have the chance again
I take it all from you
I take it all from you
I take it all from you
I take it all from you
I take it all from you
I take it all from you
"Nothing really ends", álbum: Pocket Revolution

Saturday, December 03, 2005

A cidade ausente

Adoro as cidades quando há feriados e pontes pelo meio da semana. Já se sente esse exodo, em busca da tranquilidade, noutras paragens. Que estarão a abarrotar de gente. E que tranquilidade estar aqui! Ir às compras sem esperar 10 números... Passear pelas ruas sem ir contra corrente... O despertar expontâneo, sem o ruído do tráfico... Disfrutar da ausência dos vizinhos... Boa semana...

Friday, December 02, 2005

Cais de embarque

"Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea -
(...)
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem -
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração."
Álvaro Campos
Fotografia de Cartier Bresson

Thursday, December 01, 2005

1 de Dezembro

Hoje é o Dia Mundial Contra a SIDA. E ainda ontem, no Fórum TSF ouvi uma criatura a defender testes de SIDA compulsivos a toda a gente... e quarentena para todos @s que estivessem infectad@s. Segundo esta mesma criatura, Cuba terá conseguido erradicar a "praga" ao colocar toda a gente infectada em isolamento (esquecendo, porém que, por enquanto, Cuba ainda não exige testes de SIDA a tod@s os turistas que entram no território). Com isto, deduzo, portanto que o orador em questão estivesse a delirar...
Apesar do delírio.. chocaram-me aquelas palavras. Ditas sem qualquer pudor para um auditório nacional. Prevendo um cenário tipo o do Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago... e revelando um lado profundamente preverso, desumano e idiota por parte da pessoa que fala. Só me ocorreu pensar que pessoas como ele é que deviam ficar de quarentena mental.
Foto roubada ao Público.pt