"A areia debaixo dos pés, o mar por perto, não muito distante do búzio que levava ao ouvido para ouvir as ondas. Estava a fazer o que aprendera há anos. Esquecer. Apagar tudo. Escrever de novo os pequenos parágrafos da sua história pessoal. Pintar um quadro diferente da última meia hora, desde o momento em que se virara e sorrira à pergunta «sabe dizer-me como...?» Não era fácil o trabalho de esquecer. Mal acabava de esquecer uma coisa e de a escrever a seu gosto, logo aparecia outra a precisar de correcção. E acabava sempre por chegar à única coisa em que não queria pensar - que estava a esquecer-se de quem era."
In Último Acto em Lisboa, Robert WilsonSaturday, December 31, 2005
Learning...
"A areia debaixo dos pés, o mar por perto, não muito distante do búzio que levava ao ouvido para ouvir as ondas. Estava a fazer o que aprendera há anos. Esquecer. Apagar tudo. Escrever de novo os pequenos parágrafos da sua história pessoal. Pintar um quadro diferente da última meia hora, desde o momento em que se virara e sorrira à pergunta «sabe dizer-me como...?» Não era fácil o trabalho de esquecer. Mal acabava de esquecer uma coisa e de a escrever a seu gosto, logo aparecia outra a precisar de correcção. E acabava sempre por chegar à única coisa em que não queria pensar - que estava a esquecer-se de quem era."
In Último Acto em Lisboa, Robert WilsonFriday, December 30, 2005
porque...não será antes porquê?
Again and again...
Em jeito de despedida da histeria das festas, em que pulamos alegremente de comemoração em comemoração, sem sabermos bem porquê nem como. Sempre a efervescência da perspectiva do novo, que já (pre)sentimos ser o mesmo. Em final de ano e início de outro (e quem consegue diferenciar?), apenas apetece ouvir palavras ditas pela fabulosa Elis Regina...
"Nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu estou por fora, ou então que eu estou inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê Que o novo sempre vem
Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude Está em casa guardado por Deus contando o vil metal Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos Ainda somos os mesmos e vivemos Como nossos pais"
Thursday, December 29, 2005
Equídeos...
Hoje descobri que o meu carro tem 103 cavalos... isto até podia ser uma boa notícia.. caso não tivesse sido o funcionário da seguradora a dizer-mo, justificando que com tanto cavalo não posso querer pagar menos de seguro...tivesse eu uma quinta e trocava (de muito boa vontade) o raio do carro por cavalos de verdade...Wednesday, December 28, 2005
The Hours
Horas e horas em frente a um ecrã que vai mudando de cores. Horas a fio… correndo pelos sentido das letras e dos espaços. Espaços em redondo na espiral dos dias. A velocidade que nunca parece ser suficiente. O nada que nunca parece ter fim. O tudo que já preencheu o vazio e que ocorre a cada mês. Os santos que nada nos dizem. As imagens que mentem. Os animais perdidos e um feeling que se pode ter tudo a qualquer instante… mesmo aqui. No instante a seguir.. já a seguir. Os ensaios… numa vã esperança de que algo mude os padrões riscados de tanto se repetirem. A água que escorre pelas paredes e que encharca os pensamentos de terror. O fogo que percorre a casa sem consumir o recheio do medo. O nada de nada. O vazio que açambarca a mente, que tolhe os pensamentos e que os engole num ápice. O abismo ali ao lado. Tão perto que não parece real. E o frio… esse frio que não passa. O frio que se instala e que congela as acções para que não se apaguem.Sunday, December 25, 2005
Friday, December 23, 2005
Lilja 4-ever
E ainda a propósito do tema, baseado numa história verídica - a de Dangoule - uma adolescente traficada para a Suécia, que acaba em suicídio. Dos filmes mais belos e humanos que já vi. Um murro no estômago que me fez olhar para espaços como o Elefante Branco e o Hipópotamo de outra forma. Dos poucos filmes onde vi uma prostituta ser retratada como um Ser Humano. No entanto, esta história não invalida as de outras que optaram mesmo por uma profissão considerada pouco digna.
Para saber mais sobre o filme: http://www.lukasmoodysson.com/E atenção...
Não, não me estou a esquecer das milhares de pessoas que são forçadas a prostituir-se: mulheres, homens e crianças. Não, desses não me esqueço. Mas isso tem outro nome: escravatura, sequestro, rapto, exploração sexual de menores, lenocínio, violação, coacção, tráfico de pessoas.. e uma lista que não termina aqui.. infelizmente. Não me esqueço das palavras da mesma Inês Fontinha num colóquio sobre tráfico de mulheres e que eu aqui adapto: "o corpo humano pode ser vendido vezes sem conta". Mas isto são situações totalmente distintas das que as pessoas que defendem a legalização contam. Se há homens e mulheres que querem vender o seu corpo prestando serviços sexuais ao invés de outros serviços... será que devemos mesmo continuar a virar a cara ao lado?É ou não uma questão de moralismo?
"Vocês acham sempre que as mulheres não se podem relacionar com o corpo de outra forma que não ligada aos afectos. Mas há mulheres que conseguem. E que se relacionam com o seu corpo de uma forma menos convencional ou considerada menos correcta. Não é verdade que as prostitutas não sejam amadas e que tenham uma baixa auto-estima. Não há nada que distinga estas mulheres das outras. Elas têm maridos e namorados como as outras. São amadas e há dias em que a sua auto-estima é boa outras em que não", foi a resposta de Alexandra Oliveira, psicóloga e investigadora, a Inês Fontinha - presidente do Ninho (associação que trabalha com prostitutas).
Thursday, December 22, 2005
É Natal
A tod@s vós, a quem gosta e a quem não gosta do Natal, desejo uma época feliz e um novo ano cheio de sucessos.
Wednesday, December 21, 2005
Paragem, Zona
Tragam-me esquecimento em travessas! Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê, mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Álvaro de Campos (1930)Álvaro de Campos
Embarca para a universalidade negativa de tudo
Com um grande embandeiramento de navios fingindos -
Dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faze as malas para o Grande Abandono!
E não esqueças, entre as escovas e a tesoura,
A distância policroma do que se não pode obter.
Faze as malas definitivamente!
Que és tu aqui, onde existes gregário e inútil -
E quanto mais útil mais inútil -
E quanto mais verdadeiro mais falso -
Que és tu aqui?
Embarca sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?
O tempo e eu
Tuesday, December 20, 2005
POEMA DE NATAL
Monday, December 19, 2005
Palavra de Gato...
Se bem se lembram, há tempos ameacei postar de modo a que este blog fosse definitivamente considerado um blog de gajas (segundo a tabela do caro RPS, comentarista relativamente assíduo da nossa praça). Cumpri a primeira parte quando postei sobre a Adriana Calcanhoto. Prometi um post sobre a minha gata. Não o cumpro! Antes posto acerca do que outros disseram sobre gatos, que me parece bem mais engraçado. Assim, lanço a partir deste humilde post, um petit desafio... Que comentem o seguinte excerto, retirado de um livro que recebi recentemente (saiu ontem à noite do forno, que é como quem diz, do papel de embrulho): "Téophile Gautier considerava «o gato um animal filosófico que não dispensa as suas afeições de qualquer maneira». (...),Edmond de Goncourt pensava que era inútil comparar os filósofos aos gatos. «Estudei os dois e a sabedoria dos gatos é infinitamente superior.»" Fotografia de Henri Cartier Bresson
Sunday, December 18, 2005
Parabéns aos Meninos da Avó! E já lá vai um ano!!
Eu, Menina da Avó me confesso, e não posso deixar de homenagear os meninos e as meninas que, nas primeiras e terceiras quartas- feiras de cada mês, se encontram para acontecer poesia. Deixo aqui o testemunho de alguém que por lá passou, esperando que sejam sempre mais e mais @s que por lá passam e não esquecem.
O primeiro aniversário de "Os Meninos da Avó" ocorre dia 21. Há que salientar o espirito de tertúlia e de amor pela palavra dita/escrita que move esse conjunto de resistentes irresistíveis nas noites longas da Casa da Avó, espaço assombrado pelos fantasmas do betão e onde os duendes da magia do poetar plantam suas flores silvestres nessas noites de Klingsor. A invasão da palavra é boa para os peitos cheios de ar(te) dos analfabetos da Alma, neste spleen de emoção e partilha. Continuem pois e tragam os bisnetos e muitos mais. Nós, alagamarenses iniciáticos também somos netos dessa Avó que em poemas se desdobra e no antever das almas alimenta sonhos e noites e dramas e estados de alma de muitos nós. Saravá pois para vós-que também são Nós-Meninos da Avó.
Fernando Morais Gomes
Saturday, December 17, 2005
Consoada
In As Faces Secretas das Palavras, Edições Asa
Thursday, December 15, 2005
Memories....
Andava devagar tentando olhar as fotografias, ler as dedicatórias, pensar nas vivências dos desconhecidos.
Bom vento de navegar!
Fui espreitar as Folhinhas do Professor (Agostinho da Silva) e encontrei isto: Queridos Amigos, Parece que tôda a gente está de acôrdo em que o mundo inteiro se encontra em crise. Como isto me parece demasiado vasto para eu poder ser util, decidi que sou eu quem está em crise e talvez consiga sair dela com três princípios: O de me ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar. Nestes termos comunica a todos os Amigos que não imporei a ninguém a leitura de textos meus, a começar pelas Folhinhas, e que só responderei a quem me escreva, pedindo ( para aumentar o supérfluo...) que cada carta venha com selinho de resposta, mas um apenas, para me não obrigar a escrituração administrativas. Para tudo o que fordes e fizerdes rogarei perfeito empenho e boa sorte, bom vento de navegar. Setembro de Lua Cheia e de 93. Agostinho da Silva
Tuesday, December 13, 2005
Burgueses? Natal?
«Mário nós não somos todos burgueses os gatos e os ratos se quiseres, os literatos esses são franceses e todos soletramos malmequeres. Da vida o verbo intransitivo não é burguês é ruim; e eu que nas nuvens vivo nuvens! O que direi de mim? Burguês é esse menino extraordinário que nasce todos os anos em Belém e a poesia se não diz isto Mário é burguesa também. Burguês é o carro funerário. Os mortos são naturalmente comunistas. Nós não somos burgueses Mário o que nós somos todos é sebastianistas.» Natália Correia
Monday, December 12, 2005
Respostas....
"Vai sair-lhe caro", li perplexa no livro que tanto me faz dar gargalhadas. Desta vez não ri. Fiquei a pensar... que me limitei a questionar se iria encontrar as respostas que procuro e sai-me aquele disparate. Bom, se pensarmos bem, o livro até custa 16€ - pelo que até terá acertado. Mas depois, fiquei para ali a pensar que preço era esse que se cobra às pessoas que fazem questões. E as minhas, de tão banais, deveriam ter direito a respostas à borla.... como tenho feito até agora... entrando nas livrarias.. roubando um pouco da sabedoria alheia... deliciando-me com olhares furtados aos outros....
So tell the girls that I am back in town...
Nada melhor para o ego do que um regresso à escola, e em que os alunos confessam de forma ruidosa e bem disposta, a saudade(???) que a nossa ausência lhes suscitou. E quase esquecemos, neste piscar de olho, que é tempo de avaliações. De testemunhar com o punho (de ferro?) percursos, assinalar desvios, paragens, perdas e cansaços.De novo mergulhadas em suplícios, desta vez embrulhados em cores natalícias!
Sunday, December 11, 2005
Saturday, December 10, 2005
Friday, December 09, 2005
Tuesday, December 06, 2005
Metrosexualidades... ou homens vaidosos
Quando Brad Pitt mencionou, durante uma entrevista, que usava o creme hidratante xpto (honestamente não recordo a marca), as vendas do dito produto aumentaram exponencialmente nos dias seguintes. A juntar-se a Pitt, Beckam...é outro senhor que assume que o cuidado com a imagem e com a beleza física exigem investimento de tempo e dinheiro. São eles alguns dos exemplos de metrosexualidade. Por sinal, um neologismo que já conta com dez anos. Na prática designa um homem que tem hábitos de beleza atribuídos tradicionalmente às mulheres - e aos homens homosexuais - e não tem medo de o afirmar. Ora, se estes ditos hábitos - como gastar dinheiro em roupa e em cosmética - há muito que não eram monopólio do feminino (há muito mesmo), a grande diferença está em que estes homens não receiam falar disso em público e não reagem com alergia quando se fala nesse assunto. Quarto Crescente
... o céu era negro, sem estrelas, profundo, imenso.
Uma nesga pálida da Lua despontava detrás do círculo da Lua crescente.
Fazia muito frio, o que não animava a separar a cara dos ombros.
Poucos foram os que se deram conta.
dEUS, Aula Magna, 5 Dezembro 2005
E cantaram esta:Nothing Really EndsThe plan it wasn't much of a planI just started walkingI had enough of this old townhad nothing else to doIt was one of those nightsyou wonder how nobody diedwe started talkingYou didn't come here to have funyou said: "well I just came for you"But do you still love me?do you feel the sameDo I have a chanceof doing that old dancewith someone I've beenpushing awayAnd touch we touched the soulthe very soul, the soul of what we were thenWith the old schemes of shattered dreamslying on the floorYou looked at meno more than sympathymy lies you have heard themMy stories you have laughed withmy clothes you have tornAnd do you still love me?do you feel the sameAnd do I have a chanceof doing that old dance againIs it too late for some of that romance againLet's go away, we'll never have the chance againYou lost that feelingYou want it againMore than I'm feelingyou'll never getYou've had a go atall that you knowYou lost that feelingso come down and showDon't say goodbyelet accusations flylike in that movieYou know the one where Martin Sheenwaves his arm to the girl on the streetI once told a friendthat nothing really endsno one can prove itSo I'm asking you nowcould it possibly bethat you still love me?And do you feel the sameDo I have a chanceof doing that old dance againIs it too late for some of that romance againLet's go away, we'll never have the chance againI take it all from youI take it all from youI take it all from youI take it all from youI take it all from youI take it all from you"Nothing really ends", álbum: Pocket Revolution
Saturday, December 03, 2005
A cidade ausente
Adoro as cidades quando há feriados e pontes pelo meio da semana.
Já se sente esse exodo, em busca da tranquilidade, noutras paragens.
Que estarão a abarrotar de gente.
E que tranquilidade estar aqui!
Ir às compras sem esperar 10 números...
Passear pelas ruas sem ir contra corrente...
O despertar expontâneo, sem o ruído do tráfico...
Disfrutar da ausência dos vizinhos...
Boa semana...
Friday, December 02, 2005
Cais de embarque
"Nunca, por mais que viaje, por mais que conheça
O sair de um lugar, o chegar a um lugar, conhecido ou desconhecido,
Perco, ao partir, ao chegar, e na linha móbil que os une,
A sensação de arrepio, o medo do novo, a náusea -
(...)
Trinta dias de viagem, três dias de viagem, três horas de viagem -
Sempre a opressão se infiltra no fundo do meu coração." Álvaro Campos Fotografia de Cartier Bresson Thursday, December 01, 2005
1 de Dezembro
Hoje é o Dia Mundial Contra a SIDA. E ainda ontem, no Fórum TSF ouvi uma criatura a defender testes de SIDA compulsivos a toda a gente... e quarentena para todos @s que estivessem infectad@s. Segundo esta mesma criatura, Cuba terá conseguido erradicar a "praga" ao colocar toda a gente infectada em isolamento (esquecendo, porém que, por enquanto, Cuba ainda não exige testes de SIDA a tod@s os turistas que entram no território). Com isto, deduzo, portanto que o orador em questão estivesse a delirar... Apesar do delírio.. chocaram-me aquelas palavras. Ditas sem qualquer pudor para um auditório nacional. Prevendo um cenário tipo o do Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago... e revelando um lado profundamente preverso, desumano e idiota por parte da pessoa que fala. Só me ocorreu pensar que pessoas como ele é que deviam ficar de quarentena mental. Foto roubada ao Público.pt







