Thursday, December 15, 2005

Memories....

Andava devagar tentando olhar as fotografias, ler as dedicatórias, pensar nas vivências dos desconhecidos.

Procurei as palavras adequadas. Ordenar os pensamentos. Reposicionar o que sentia. Lembrei-me de que afinal eu "nunca saira de ao pé dele"; pois "trazia sempre a tua foto na carteira", como me tinham contado. Agachei-me como que para lhe contar um segredo quando olhei para o monte de terra e para as flores frescas. Mas não havia nada a dizer. Não estava ali ninguém para ouvir. Nada. Sempre o nada.

Nem sei dizer porque deixei cair lágrimas por um rosto demasiado cansado. Por fim ergui-me e segui...

Tentei perceber de que forma se constróem as memórias encerradas em caixas decadentes, cheias de flores mortas e em caixotes cobertos com rendas. Tentei não me sentir esmagada por aquela sensação de vazio.

Pela pequena janela consegui ver uma caixa de música. Igual à que tenho pendurada no escritório. Tinha morrido aos seis anos. Mais à frente, uma outra onde estava um carrinho playmobil em cima da urna. "Memória eterna", "estarás sempre presente nos nossos corações", "para sempre"..... não será para sempre tempo demais para o vazio?

Quando vi o talhão islâmico senti-me melhor: crescia erva em cada túmulo. Pequenos vestígios de que ainda há vida naquele lugar.

3 comments:

Sextosentido said...

A morte é vista pelos espiritualistas como uma desencarnação e uma partida para um plano astral diferente. Eu não ponho sequer isso em dúvida, para mim é já uma certeza.

E sempre que alguém que amo parte, levo o pedido de que encontre a luz e que aceite o seu caminho. Sei que partiu para um plano superior.

Encaro um cemitério é apenas uma espécie de cais, de estação de partida... e penso que por de trás de cada nome houve uma história, uma vivência que deixou marcas... não percas.

A morte de uma pessoa deixa um espaço vazio, por vezes o mais importante para nós, mas o importante foi o que nos deixou... a diferença que fez a sua passagem pelas nossas vidas e o que mudou em nós por isso.

horvallis said...

Que texto belo e profundo.
Percebe-se muito bem a confusão das emoções, e esse reflexo que temos de focalizar a atenção em pormenores como as rendas, as flores, como para não se deixar aspirar pelo vazio, e talvez para conseguir acreditar no que está acontecendo, pois tudo parece sempre tão surrealista.
Beijos.

Dirim said...

Obrigada a ambas.