Tuesday, December 06, 2005

Metrosexualidades... ou homens vaidosos

Quando Brad Pitt mencionou, durante uma entrevista, que usava o creme hidratante xpto (honestamente não recordo a marca), as vendas do dito produto aumentaram exponencialmente nos dias seguintes. A juntar-se a Pitt, Beckam...é outro senhor que assume que o cuidado com a imagem e com a beleza física exigem investimento de tempo e dinheiro. São eles alguns dos exemplos de metrosexualidade. Por sinal, um neologismo que já conta com dez anos. Na prática designa um homem que tem hábitos de beleza atribuídos tradicionalmente às mulheres - e aos homens homosexuais - e não tem medo de o afirmar. Ora, se estes ditos hábitos - como gastar dinheiro em roupa e em cosmética - há muito que não eram monopólio do feminino (há muito mesmo), a grande diferença está em que estes homens não receiam falar disso em público e não reagem com alergia quando se fala nesse assunto.

Esta é uma boa notícia para a indústria da cosmética, uma vez que os homens passarão a disputar com as mulheres este mercado - e com muito mais vantagens para este último, já que a maior parte da riqueza mundial está concentrada em mãos (ou carteiras e contas) masculinas. O mercado da cosmética poderia ter sido mais inteligente e ter percebido isso há mais tempo... é um facto. Mas se por um lado a metrosexualidade parece libertar os homens do estigma de que a virilidade e o masculino são incompatíveis com a saúde da pele e do cabelo, permitindo-lhes adquirir o que bem entenderem sem complexos de culpa e de vergonha (porque homem que é homem até faz a barba com água e sabão e essas coisas dos cremes é para maricas ou rabetas na versão nortenha), por outro poderá torná-los tão reféns do mercado como já as mulheres estão. Os cuidados com a pele e com o cabelo são uma questão de saúde, ou seja, de necessidade e não de vaidade. Mas é preciso lembrar que as indústrias da cosmética, das cirúrgias estéticas e das dietéticas são máquinas de fazer dinheiro que põem qualquer hipermercado num chinelo.....recorrem a mentiras utilizando-as como conhecimento científico e utilizam uma linguagem inteligível a poucos, aproveitam-se dos medos humanos e estimulam a criação de determinadas imagens que lhes convêm. Apenas recentemente, algumas marcas começaram a deixar asteriscos junto à palavra hidratante, para explicar que hidrata só até às camadas superiores da epiderme. Ou seja: vendem aspirações de saúde e juventude que na maioria das vezes não conseguem cumprir.

Por outro lado, esta mudança de hábitos e atitudes não parece ter qualquer reflexo nos papéis sociais de cada género. Ou seja, com metrosexuais ou não, as mulheres continuam a ter que vir do trabalho e cuidar das tarefas domésticas e os homens podem simplesmente ficar mais tempo a fazer compras, para chegar a casa e ainda ter tempo de pôr a máscara hidratante enquanto elas acabam de fazer o jantar. É que, no último inquérito ao Uso do tempo (em Portugal) eram já os homens dedicavam mais tempo com os cuidados consigo mesmos, contrariamente ao chavão de que são elas que demoram eternidades para sair de casa porque estão naquela panóplia de futilidades que não servem para nada...

10 comments:

rps said...

Metrossexual é mais do que um neologismo - é um eufemismo. Porque é óbvio que - e cito o post - "essas coisas dos cremes é para maricas ou rabetas na versão nortenha".
De norte a sul usam-se outros termos ainda mais expressivos que, por decoro, me escuso de citar aqui.

Ginko said...

Embora nada do que dizes fique invalidado existe uma nova definição para a tendencia masculina.
Übersexual é a última definição para a nova tendencia masculina.
Marian Salzman, Ira Matathia y Ann O'Reilly, "gurus" no sector publicitário/ autores do livro "The Future of Men" recentemente publicado nos Estados Unidos.

"Urban Dictionary, que recolhe expressões e términos coloquiales, "über" significa em alemão "por em cima" o equivalente em inglês sería "very" ou "super", ainda que para "übersexual" os autores não referem uma desbordante actividad sexual senão a uma recuperação de uma certa masculinidade que na sua opinião se tinha perdido nos últimos anos.(...)"Por Victor Martin, EFE

Everything in it's Right Place said...

eu faço a barba com água e sabão. só não uso uma navalha para me barbear pq ainda não encontrei a que queria, parecida com a do meu avô!

e, no entanto, sou puta fina quanto a champoos e outras tretas.

e agora? quem sou eu? de onde vim? para onde vou?

Ginko said...

Se tens dúvidas e se nos centramos na nova tendencia "Uber", situas-te por aí... um dos que se cuida sem pôr de parte o seu lado mais masculino, centrando-se na busca da navalha perfeita... já imagino o spot publicitário!

Dirim said...

Querido Everything... por certo que encontrarás mais pistas para as tuas perguntas existenciais noutros locais do que neste blog...que não foi criado com o intuito de preencher as dúvidas existenciais de ninguém...
Ginko: obrigada pelas referências. Já tinha lido um artigo a propósito dos übersexuals no The Guardian. Acho que a grande diferença relativamente aos metrosexuais é que nem se coloca a questão no que diz respeito à sua orientação sexual. São heterosexuais que gostam e assumem gostar de cuidar de si (tanto quanto algumas mulheres e tanto quanto alguns homosexuais).
Caro rps: a citação que transcreveu é para ser lida com ironia. Se não entendeu aqui vai a legenda: "ler com ironia".

Sextosentido said...

Pois eu acho óptimo os homens preocuparem-se mais com a beleza e com comportamentos sociais mais cuidados... a ideia do homem a coçar os tomates e a cuspir para o chão (que existe, dirijam-se apenas para a tasca ou a obra mais perto e vejam esta realidade seguida de uma becheca...).

Seguindo esta ideologia, como prenda de natal antecipada, ofereci ao meu namorado um creme de homem anti idade e umas máscaras faciais. Ele adorou... e o cheiro é IRRESISTÍVEL. E não é porque os passou a usar que deixou de partilhar as tarefas domésticas...

Everything in it's Right Place said...

já não está aqui quem perguntou!!

Dirim said...

Mariana: ainda bem :D Para ambos. A minha reflexão vai simplesmente no sentido de afirmar que a mudança de hábitos e atitudes face aos cuidados com o corpo não alteram em nada a reprodução dos papéis sociais de género.

rps said...

Cara Dirim... Percebi a sua ironia. Só que do meu ponto de vista, a frase é válida sem ironia. A tese certa é essa. Creminhos??? Bolas!

Dirim said...

Caro rps: parece que ficou esclarecido que para si, a masculinidade ficará comprometida quando se fala de saúde da pele e do cabelo. Incompatibilidades pequenas, é certo. É que para certos seres humanos do sexo masculino, o auto-conceito parece ser tão frágil que qualquer coisinha é motivo para se questionar a tão acarinhada "virilidade". É, portanto, do grupo dos que fica com borbulhas quando se fala do assunto.