Friday, December 23, 2005

E atenção...

Não, não me estou a esquecer das milhares de pessoas que são forçadas a prostituir-se: mulheres, homens e crianças. Não, desses não me esqueço. Mas isso tem outro nome: escravatura, sequestro, rapto, exploração sexual de menores, lenocínio, violação, coacção, tráfico de pessoas.. e uma lista que não termina aqui.. infelizmente. Não me esqueço das palavras da mesma Inês Fontinha num colóquio sobre tráfico de mulheres e que eu aqui adapto: "o corpo humano pode ser vendido vezes sem conta". Mas isto são situações totalmente distintas das que as pessoas que defendem a legalização contam. Se há homens e mulheres que querem vender o seu corpo prestando serviços sexuais ao invés de outros serviços... será que devemos mesmo continuar a virar a cara ao lado?

3 comments:

anarresti said...

Eu não respondo não à legalização. Mas é óbvio que antes de pensar em legalizar a prostituição ou de pensar que legalizá-la é resolver os seus problemas é necessário corresponder à crise humanitária que a prostituição envolve. Porque a alimentar a prostituição existe o que nomeaste: "escravatura, sequestro, rapto, exploração sexual de menores, lenocínio, violação, coacção, tráfico de pessoas.." Mas também me parece óbvio que os sindicatos que têm surgido mostraram que é urgente encarar os trabalhadores do sexo com o mesmo respeito com que se encaram todos os outros trabalhadores. E que é eficaz, em certa medida, encará-los como trabalhadores antes de tudo, com direitos e garantias. Que isso os protege, e que sidicalizá-los é uma forma de lhes dar representação, apoio, aconselhamento legal. É até uma forma de lhes dar orientação para a procura de uma vida fora da prostituição, para quem o deseja. Quanto a quem deseja ganhar dinheiro com o sexo, se isso encontrar enquadramento legal em Portugal, é óbvio que deve ter todos os benefícios e as obrigações de qualquer outro trabalhador. Num mundo ideal, em que o sexo não é algo que se reprime e recalca a simples ideia de recorrer à prostituição seria hilariante. Mas não vivemos num mundo ideal, não é? Além disso, no mundo ideal de algumas pessoas se calhar existe a prostituição...

Dirim said...

v-e-l-ü-t-h-a: actualmente, quem pretende ganhar dinheiro com o sexo não encontra nem prós, nem contras do Estado (quer dizer, contras até encontra, pois não o pode fazer recorrendo a contratos de trabalho ou tendo acesso a um sistema de segurança social). Mas o Estado não proibe o recurso ao sexo para fins lucrativos - excepto no recurso a terceiros. Suponho que no mundo ideal de alguns a prostituição exista mesmo. Que eu acho no minímo estranho que alguém tenha mesmo que comprar sexo, acho. E não acho que seja um assunto simples. Penso sempre nas mulheres que defendem o uso do véu e de outros acessórios considerados pelo Ocidente como repressores e tento perceber quais as razões pelas quais o fazem (pensando no argumento de que as pessoas que defendem a legalização estão a ser manipuladas). Penso também que é complexo que alguém recorra à prostituição de livre vontade e se sinta bem com o assunto (mas isto é somente um preconceito da minha parte, preconceito este que tento combater...). Mas acredito que haja - pelo menos é o que tenho ouvido da parte de algumas pessoas do meio. Conheço bem a posição da Inês Fontinha. Admiro muito o trabalho do Ninho. Mas não deixo de admirar também a coragem da Ana Lopes e de toda a gente, que pelo mundo fora não vira a cara ao lado quando tem na frente uma pessoa que vende serviços sexuais para como profissão. Há quem venda a morte dos outros - mas, por incrível que pareça - isso parece chocar menos a sociedade...

horvallis said...

Dirim,
Acho o debate difícil.
O problema é que é muito difícil de saber quem o faz por escolha e quem é obrigado.
Me lembro da prostituta Ulla, nos anos 70, leader do movimento das prostitutas e que dizia se prostituir livremente e por escolha pessoal. Anos depois, quando ela abandonou a prostituição, ela soltou essa frase :
"Livre ? Mas como vocês puderam acreditar que eu estava livre ?". E contou o seu inferno num livro.
Por isso quando quando vejo uma prostituta dizer que ela faz isso livremente, por escolha ou por gostar, essa frase da Ulla e a história dela me vêm à memória. Será que quando for velha, e depois de anos de sofrimento ela vai voltar e dizer : "livre, mas como é que vocês puderam acreditar nisso".
Mas que os trabalhadores do sexo devem ter direitos como qualquer outro cidadão e trabalhador.