E a propósito
deste post da Woman once a bird....e da conversa que tivémos ontem sobre isto (e mesmo correndo o risco de me estar a
repetir):
"A violência simbólica é uma forma de poder que é directamente pregada no corpo, como por magia, sem qualquer aparente constrangimento físico. Mas esta magia funciona porque activa os códigos impostos e absorvidos pelos estratos mais profundos do corpo" (
Pierre Bourdieu)
Apanhadas na submissão encantatória, característica da violência simbólica inscrita nas camadas misteriosas da carne, as mulheres renunciam ao que ele chama
les signes ordinaires de la hierarchie sexuelle, tais como a velhice, ou um corpo gordo. Ao fazerem isto, explica Bourdieu, as mulheres aceitam espontaneamente uma posição subserviente. É esta espontaneidade que Bourdieu chama «
encantamento mágico».
Tanto Naomi Wolf como Bourdieu (este chega com 15 anos de atraso relativamente a Wolf) chegam à conclusão de que os insidiosos «códigos do corpo» paralisam as capacidades das mulheres ocidentais de competirem com o poder, apesar de o acesso à instrução e às oportunidades profissionais estar aberto. As mulheres entram no jogo do poder com tanta energia já desviada para a aparência física, que hesitamos em dizer que o campo de jogos está nivelado. «Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão sobre a beleza feminina», explica Wolf, «é uma obsessão sobre a obediência feminina. As dietas são o mais poderoso sedativo político da história das mulheres; uma população feita de loucos tranquilos é uma população manipulável».
Wolf defende que a investigação «confirmou aquilo que a maioria das mulheres conhece demasiado bem: que a obsessão com o peso leva a um 'colapso da auto-estima e do sentido de eficiência', e que «uma prolongada e periódica restrição calórica resulta numa personalidade diferente cujas características são a passividade, a ansiedade e a emocionalidade». Também Bourdieu, que se concentra mais no modo como este mito entalha as susa inscrições na própria carne, reconhece que recordar constantemente às mulheres a aparência física desestabiliza-as emocionalmente, porque as reduz a objectos para exibir. «Reduzindo as mulheres ao estatuto objectos para serem vistos e julgados pelo outro, a dominação masculina coloca as mulheres num estado de permanente insegurança física... Têm de manter uma luta para serem acolhedoras, atraentes e disponíveis». Congelada na posição passiva de um objecto cuja existência própria depende do olhar do observador, a mulher ocidental moderna e instruída transforma-se numa escrava de harém.
In O Harém e o Ocidente, Fatema Mernissi (Edições Asa).
A
Horvallis reflecte bastante sobre estes temas e tem um
post sobre este livro, no original chamado "
Sherazade goes west" e cujo objectivo inicial foi perceber qual o fascínio que a palavra harém exercia sobre os homens ocidentais. A avó de Fatema viveu num Harém. Fatema conclui que:
"Sim, encontrei finalmente a resposta para o enigma do harém. Enquanto o homem muçulmano usa o espaço para estabelecer o domínio masculino excluindo a mulher do espaço público, o homem ocidental manipula o tempo e a luz. Declara que, para ser bela, uma mulher deve aparentar 14 anos. Se ousar aparentar 50, ou pior, 60, é declarada inaceitável. Apontando o holofote para a mulher criança e emoldurando-a como ideal de beleza, condena a mulher madura à invisibilidade. De fcto, o homem moderno ocidental reforça as teorias de Kant do sec. XIX: para serem belas, as mulheres devem ter uma aparência infantil e tonta. Se uma mulher tiver um aspecto maduro e se mostrar segura de si, ou permitir que as suas ancas alarguem, é condenada como feia. Deste modo, as paredes (no sentido de prisão) do harém europeu separam a beleza da juventude, da fealdade da maturidade. (...)
A violência criada pelo harém ocidental é menos visível que a do harém oriental porque o envelhecimento não é atacado directamente, é antes mascarado de escolha estética."
De resto, Wolf (The Beauty Mith, how images are used against women) afirma que celulite - enquanto ideal estético, ou melhor, a ausência dela - foi criado pela revista Vogue. Garante Wolf que, antes de, nos anos 60, a Vogue começar com uma "campanha" que explicava que ter celulite era feio, esta era considerada normal nas mulheres.
Já agora.. os homens também têm celulite. Será que iremos chegar a ver produtos para acabar com a celulite dos homens?
Creio que Fatema também é muito tendenciosa neste livro, porque garante (por diversas vezes) que o estatuto das mulheres muçulmanas é "melhor" que o das ocidentais. Afirma ela:
"a base da misoginia no Islão actual é bastante fraca, e apoia-se apenas na distribuição do espaço. Se as mulheres invadem o espaço público, a supremacia masculina fica seriamente ameaçada. E actualmente os homens muçulmanos já perderam a base do poder, uma vez que o monopólio do espaço público foi desgastado pelo ingresso maciço das mulheres nas áreas científicas e das profissões".