Sunday, May 14, 2006

(Ainda) o Peso das Medidas II

E a propósito deste post da Woman once a bird....e da conversa que tivémos ontem sobre isto (e mesmo correndo o risco de me estar a repetir): "A violência simbólica é uma forma de poder que é directamente pregada no corpo, como por magia, sem qualquer aparente constrangimento físico. Mas esta magia funciona porque activa os códigos impostos e absorvidos pelos estratos mais profundos do corpo" (Pierre Bourdieu) Apanhadas na submissão encantatória, característica da violência simbólica inscrita nas camadas misteriosas da carne, as mulheres renunciam ao que ele chama les signes ordinaires de la hierarchie sexuelle, tais como a velhice, ou um corpo gordo. Ao fazerem isto, explica Bourdieu, as mulheres aceitam espontaneamente uma posição subserviente. É esta espontaneidade que Bourdieu chama «encantamento mágico».
Tanto Naomi Wolf como Bourdieu (este chega com 15 anos de atraso relativamente a Wolf) chegam à conclusão de que os insidiosos «códigos do corpo» paralisam as capacidades das mulheres ocidentais de competirem com o poder, apesar de o acesso à instrução e às oportunidades profissionais estar aberto. As mulheres entram no jogo do poder com tanta energia já desviada para a aparência física, que hesitamos em dizer que o campo de jogos está nivelado. «Uma fixação cultural na magreza feminina não é uma obsessão sobre a beleza feminina», explica Wolf, «é uma obsessão sobre a obediência feminina. As dietas são o mais poderoso sedativo político da história das mulheres; uma população feita de loucos tranquilos é uma população manipulável».
Wolf defende que a investigação «confirmou aquilo que a maioria das mulheres conhece demasiado bem: que a obsessão com o peso leva a um 'colapso da auto-estima e do sentido de eficiência', e que «uma prolongada e periódica restrição calórica resulta numa personalidade diferente cujas características são a passividade, a ansiedade e a emocionalidade». Também Bourdieu, que se concentra mais no modo como este mito entalha as susa inscrições na própria carne, reconhece que recordar constantemente às mulheres a aparência física desestabiliza-as emocionalmente, porque as reduz a objectos para exibir. «Reduzindo as mulheres ao estatuto objectos para serem vistos e julgados pelo outro, a dominação masculina coloca as mulheres num estado de permanente insegurança física... Têm de manter uma luta para serem acolhedoras, atraentes e disponíveis». Congelada na posição passiva de um objecto cuja existência própria depende do olhar do observador, a mulher ocidental moderna e instruída transforma-se numa escrava de harém.
In O Harém e o Ocidente, Fatema Mernissi (Edições Asa).
A Horvallis reflecte bastante sobre estes temas e tem um post sobre este livro, no original chamado "Sherazade goes west" e cujo objectivo inicial foi perceber qual o fascínio que a palavra harém exercia sobre os homens ocidentais. A avó de Fatema viveu num Harém. Fatema conclui que:
"Sim, encontrei finalmente a resposta para o enigma do harém. Enquanto o homem muçulmano usa o espaço para estabelecer o domínio masculino excluindo a mulher do espaço público, o homem ocidental manipula o tempo e a luz. Declara que, para ser bela, uma mulher deve aparentar 14 anos. Se ousar aparentar 50, ou pior, 60, é declarada inaceitável. Apontando o holofote para a mulher criança e emoldurando-a como ideal de beleza, condena a mulher madura à invisibilidade. De fcto, o homem moderno ocidental reforça as teorias de Kant do sec. XIX: para serem belas, as mulheres devem ter uma aparência infantil e tonta. Se uma mulher tiver um aspecto maduro e se mostrar segura de si, ou permitir que as suas ancas alarguem, é condenada como feia. Deste modo, as paredes (no sentido de prisão) do harém europeu separam a beleza da juventude, da fealdade da maturidade. (...)
A violência criada pelo harém ocidental é menos visível que a do harém oriental porque o envelhecimento não é atacado directamente, é antes mascarado de escolha estética."
De resto, Wolf (The Beauty Mith, how images are used against women) afirma que celulite - enquanto ideal estético, ou melhor, a ausência dela - foi criado pela revista Vogue. Garante Wolf que, antes de, nos anos 60, a Vogue começar com uma "campanha" que explicava que ter celulite era feio, esta era considerada normal nas mulheres.
Já agora.. os homens também têm celulite. Será que iremos chegar a ver produtos para acabar com a celulite dos homens?
Creio que Fatema também é muito tendenciosa neste livro, porque garante (por diversas vezes) que o estatuto das mulheres muçulmanas é "melhor" que o das ocidentais. Afirma ela:
"a base da misoginia no Islão actual é bastante fraca, e apoia-se apenas na distribuição do espaço. Se as mulheres invadem o espaço público, a supremacia masculina fica seriamente ameaçada. E actualmente os homens muçulmanos já perderam a base do poder, uma vez que o monopólio do espaço público foi desgastado pelo ingresso maciço das mulheres nas áreas científicas e das profissões".

4 comments:

Ginko said...

Comparto estas ideias contigo e com tantas outras mulheres para quem as marcas do tempo e da exigencia laboral e familiar lhes deixa pouco tempo para se mimarem e cuidarem (sem que isso signifique aparentar 14 anos).
Sobre a questão dos productos anticeluliticos para homens existem sem grande divulgação, porque os homens devem ter uma aparencia viril (aos olhos de uma sociedade maxista e sexista), os que se cuidam "são maricas".
Excepcionalmente há uma campanha (em Espanha)de um producto tipo emplastros mini para redução de gorduras em que aparecem um rapaz, uma rapariga e uma sra. dos seus visivéis e bem passados 60 anos (não recordo agora o nome). Uma outra excepção no mundo da publicidade, é um producto anti-rugas da Loreal para homens (slogan: se crês que para ela as tuas rugas significam expressividade estás enganado - e vê-se um homem enrrugado a sorrir a uma mulher que passa e o ignora)

Dirim said...

Penso que o anúncio da L'óreal já passou cá (embora não esteja certa, até porque vejo pouca tv.). No entanto, quanto a este assunto, não sei se isso será um bom sinal. A pergunta a meu ver é: é bom que a sociedade dê tanta relevância à aparência de juventude? Não me refiro (obviamente) ao cuidado com o corpo. Penso, directamente, em todas as imagens, textos e contextos, campanhas em que, mais ou menos directamente nos dizem: há uma só forma de ser mulher/homem. Que as mulheres estão presas a essa armadilha já se sabe. Que os homens estão presos à armadilha que não tolera a ideia de que um Ser Humano do sexo masculino possa ser humano, sob pena de a sua virilidade ser posta em causa (é a masculinidade hegemónica no seu melhor) também sabemos. Se o caminho que se está a trilhar (com a ajuda de várias figuras públicas que assumem a sua metrosexualidade) será o ideal, isso não sei. Será que os homens irão ser apanhados pela armadilha do Mito da Beleza (Naomi Wolf)? Se assim for, não me parece positivo. Uma coisa é o apelo ao(s) cuidado(s) do corpo enquanto elemento paralelo de um Si em permanente mudança. Como forma de consolidação do auto-conceito e da saudável convivência com as metamorfoses da idade. Outra, totalmente distinta, é o apelo à eterna juventude em corpos acorrentados a um ideal que, há muito ultrapassou os limites do razoável em termos de saúde. Cada vez conheço mais homens que exprimem a vergonha pelo seu corpo. Esses homens não são obesos. Não têm nenhum problema de saúde. No entanto, experimentam um desconforto com eles próprios, que a maior parte das mulheres (gordas, magras, altas ou baixas) já conhecem há muito tempo. Por isso, tenho as minhas reservas quanto à ganância das multinacionais que, aproveitando os mitos de uma sociedade neurótica que privilegia a aparência, tiram o que os Seres Humanos mais susceptíveis têm e não têm: o dinheiro, o amor-próprio e a dignidade.

horvallis said...

Dirim,
O texto de Fatema Mernissi foi quase uma revelação para mim, pois me mostrou uma coisa que nunca tinha percebido : o quanto os nossos padrões de vida parecem ruim vistos de fora, e podem ser até totalmente repelentes. Afinal de conta, os nossos exageros dão tão medo aos muçulmanos quanto o Islã aos occidentais. Com certeza, esses exageros viram excelentes argumentos para os integristas ou para os conservadores muçulmanos.

Dirim said...

Sim, infelizmente, creio que sim, Horvallis. Curiosamente, a propósito de uma campanha da água do Luso que decorre em Portugal, em que a imagem é o corpo de uma mulher - abaixo do peito até um pouco abaixo das ancas. No corpo dela estão assinalados como se fossem recortes, os locais onde (supostamente) as mulheres acumulam mais gordura. O produto anunciado é uma água com limão.. mas isto porque as estações de Metro estão cheias destes mupies.. e no outro dia, quando estava a passar numa estação (Martim Moniz) que é frequentada por imensas pessoas de minorias étnicas, pensei exactamente nisso. Como é que os homens muçulmanos vêem este anúncio? Que impactos é que estas imagens têm sobre a forma como eles vêem (olham) as mulheres (e também os homens) ocidentais?
Outro aspecto muito interessante no livro da Fatema é que ela explica (logo no início) que um amigo (académico) acreditava que as mulheres não instruídas eram muito mais subversivas do que as instruídas: "porque introduziam distorções heréticas nos contos e usavam a expressão oral, escapando totalmente à censura". Ora, este foi um ponto que me pareceu muito interessante, porque totalmente novo. Ela conta este episódio a propósito de uma história que a avó dela lhe contava: A mulher com o vestido de penas. Ora, sucede que, no original, a história chamava-se "A História de Hassan al-Basri". Ou seja, a primeira subversão terá sido a feminização do título. A outra distorção da avó de Fatema era o final, que no original terminava com o reencontro da família (após a mulher ter fugido com os filhos). Nas palavras de Yasmina (avó de Fatema), o Hassan al-Basri passou muito tempo à procura da mulher e dos filhos, mas sem nunca os conseguir encontrar.