Wednesday, May 31, 2006

(...) Depois de a enfermeira sair, pensei na pergunta que ela tinha feito: que espécie de louco era o meu marido? Desta vez não estava a culpar-me por ter casado com ele. Culpava a mãe dele! Por o ter trazido ao mundo, por lhe atender todos os desejos como se fosse sua criada, por dar sempre de comer primeiro ao marido e ao filho, por só me deixar comer depois de eu ter apanhado pedaços de comida agarrados à barba do meu sogro, por deixar a mesquinhez do filho crescer como um estranho apetite, de tal modo que ele havia de ter fome de alimentar o seu próprio poder.
E talvez isso fosse errado da minha parte, culpar outra mulher pelas minhas próprias infelicidades. Mas era assim que eu fora educada: a nunca criticar os homens ou a sociedade que eles governavam (...). Só podia culpar outras mulheres que tinham mais medo do que eu.
In A Esposa do Deus do Fogo, Amy Tan
Judith Slaying Holofernes
Artemisia Gentileschi

4 comments:

Gaia said...

Não podemos, de forma alguma, continuar a «culpar outras mulheres que [tenham] mais medo (...)» É preciso libertá-las da apropriação onde foram educadas.

Sextosentido said...

Que duro esse texto... antes de ler o seu autor, seria capaz de jurar que tinha sido escrito por Agustina Bessa Luís...

samari said...

O livro é todo assim?

Dirim said...

Não.. mas este marido sim.