Friday, June 30, 2006

Não se preocupem comigo: também tenho a verdade. Tenho-a a sair da algibeira de um prestidigitador. Também pertenço... Ninguém conclui sem mim, claro, E estar triste é ter ideias destas. Ó meu capricho entre terraços aristocráticos, Comes açorda em mangas de camisa no meu coração. Álvaro de Campos (1929)
Imagem de Ana Haterly

Tuesday, June 27, 2006

Auto-retrato, Ana Hatherly

Este que vês, de cores desprovido, o meu retrato sem primores é e dos falsos temores já despido em sua luz oculta põe a fé. Do oculto sentido dolorido, este que vês, lúcido espelho é e do passado o grito reduzido, o estrago oculto pela mão da fé. Oculto nele e nele convertido do tempo ido escusa o cruel trato, que o tempo em tudo apaga o sentido; E do meu sonho transformado em acto, do engano do mundo já despido, este que vês, é o meu retrato. Ana Hatherly

Sunday, June 25, 2006

Reivindicação

Ontem. Hoje. E sempre. Porque é uma questão de Direitos Humanos.
Foto do Portugalgay.pt

Friday, June 23, 2006

Listening

Wednesday, June 21, 2006

Provérbio Japonês

O Ausente afasta-se todos os dias
Imagem de Francis Toussain

Memória

"Os poetas sabiam que podiam falar a mentira e a verdade e misturá-las pela virtude da semelhança" In Os assassinos da Memória, Pierre Vidal-Naquet Imagem de Anna Karin Glass, Recent Memories

Tuesday, June 20, 2006

Sábia WOAB

Ou de como o espectáculo pode adormecer a razão....

Monday, June 19, 2006

A Queda

"(...) Como amamos os amigos que acabam de deixar-nos, não acha?!
Como admiramos os nossos mestres que já não falam, com a boca cheia de terra! A homenagem surge, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez eles tivessem esperado de nós durante a vida inteira. Mas sabe porque somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Para com eles, já não há deveres. Deixam-nos livres, podemos dispor do nosso tempo, arrumar a homenagem entre o copo-d'água e uma gentil amante, nas horas vagas, em suma. Se algo nos impusessem, seria a memória e nós temos a memória curta. Não...., é o morto de fresco que nós amamos nos nossos amigos; o morto doloroso, a nossa emoção, enfim, nós próprios. (...)".
In A Queda, Albert Camus

Sunday, June 18, 2006

"As ervas daninhas são tão grandes Que apenas se vê o caminho Que conduz à minha casa. Cresceram enquanto esperava A alguém que nunca chegou." Sojo Henjo (815-890)
"a raiz do sofrimento é que sou eu o objecto de todos os meus actos." um sábio lama

Camille (ainda)

"Caí no abismo. Do sonho que foi a minha vida, isto é o pesadelo",
estas são as palavras de Camille descrevendo os anos de clausura no manicómio.
Desde o dia 10 de Março de 1913, quando a foram buscar a casa para o hospital psiquiátrico Ville-Evrard, para ser transferida, dois anos mais tarde, para o manicómio de Montdevergues, Camille não conseguirá que nenhum dos seus parentes aceda às suas súplicas. Primeiramente, para a deixarem viver fora dali, depois, pedindo apenas que a transferissem para mais próximo de Paris e por último, que a visitassem. Somente uma visita. Um contacto com o exterior. Uma prova do afecto. A mãe e a irmã Louise jamais foram vê-la. Paul visitava-a de quando em quando (vivia fora de França), mas nunca a libertou.
Camille morreu e foi enterrada no cemitério do manicómio. Consta que quando, 12 anos após a sua morte, a família quis recuperar os restos mortais, terão sido informados que a zona teria sido alvo de obras e que a campa se teria perdido.
Durante anos esquecida e enterrada. Camille foi reduzida à definição com referente nos outros: como amante de Rodin, como irmã de Paul Claudel. Só muito mais tarde, é reconhecida como Escultora.
Camille, a genialmente Bela. Camille, a quem não perdoaram o grito de liberdade, primeiramente da família, depois de Rodin... e a quem o amante roubou a vida. Camille deixou-se engolir pelos delírios. a ponto de destruir as suas obras por acreditar que Rodin lhe roubaria as ideias. projectou nele toda a sua frustração e medo, atribuindo-lhe toda a responsabilidade pela sua situação.
"Censuram-me - oh! crime espantoso! - o facto de ter vivido sozinha", escreve em 1917.

A Camille Claudel, la femme oublié

"Il parlera du passé, des années de Villeneuve. Le reste, il n’en dira rien, il ne voudra plus rien dire de ce qui la concernait, ni qu’avec la mère la retirant de cet atelier des quais, il la mettait chez les fous, et quatre ans plus tard elle y était encore, et alors elle leur écrivait à propos des journées très longues et de l’ennui dont elle souffrait, et aussi du froid qu’il y avait l’hiver dans ce pays, jusque dans sa chambre disait-elle où elle attrapait l’onglée et ne pouvait pas même tenir la plume, tandis que mois après mois elle demandait qu’on la sortît de là et parlait de cette cruauté qu’elle avait, elle leur mère, de ne pas lui donner asile à Villeneuve où elle promettait, si elle revenait, de ne pas déranger ni causer de soucis, ni même de bouger tellement à présent elle avait souffert ; elle avait tellement souffert, disait-elle, qu’elle ne pourrait s’en remettre, elle se tiendrait tranquille et se contenterait de peu, une mansarde, un bout de cuisine suffiraient." In La Robe Bleue, Michèle Desbordes Na imagem: pormenor de The Age of Maturity, Camille Claudel

Saturday, June 17, 2006

Remar, Remar

Remar, remar Mares convulsos, ressacas estranhas Cruzam-te a alma de verde escuro As ondas que te empurram As vagas que te esmagam Contra tudo lutas Contra tudo falhas Todas as tuas explosões Redundam em silêncio Nada me diz Berras às bestas Que te sufocam Em braços viscosos Cheios de pavor Esse frio surdo O frio que te envolve Nasce na fonte Na fonte da dor Remar remar Força a corrente Ao mar, ao mar Que mata a gente Xutos & Pontapés

Auto-retrato II

NERECUPERABILI (IRRECUPERÁVEIS)

Este é um excerto de uma reportagem da autoria de Luís Pedro Nunes e Alfredo Cunha, publicada no Público de 1991. Na Roménia, heranças de Ceaucescu. A ignomínia humana não tem limites.
"You must be strong Mas mais do que o aviso do director, algo diferente, obsessivo, corporal, intenso, deixara todos de sobreaviso. Logo à entrada de Camin, mesmo antes de se ultrapassar a porta principal: o Cheiro. Sobretudo, o cheiro. Logo no primeiro passo dado no interior do quarto, o que apetece é o vómito, como se uma barreira viscosa se interpusesse entre nós e aquele espaço de nojo. Algo revoltante que se sobrepõe à necessidade de ali entrar. As lágrimas surgem nos olhos. Não que alguém esteja comovido. Não por alguma razão humanitária. Nem tão-pouco porque já se tenha visto algo de terrífico ou impressionante. O cheiro de defecções humanas acumuladas durante anos e anos multiplicado agora pelo excesso de aquecimento leva alguém a dizer: não vou conseguir entrar. Aquele era o quarto preparado. O que tinha sido limpo para a visita dos médicos. Chegara-lhes a informação que traziam consigo jornalistas autorizados. Em Bîlteni, os medos imediatamente detectáveis são outros: crianças que temem as batas brancas usadas pelas enfermeiras romenas. Pavores registados nas suas memórias. A associação que fazem a esta peça de vestuário aterra-as. Entra-se finalmente no quarto. (...) As crianças agitam-se. As que conseguem sair da cama agarram-se, de forma suplicante, num desejo único: subir para o colo. É com ansiedade que tentam galgar pelas pernas dos adultos, as personagens de uma visita inesperada. Desesperam por não o conseguir, gritam, guincham à procura da pessoa, na sofreguidão de a cheirar, de lhe tocar. (...) Um dos miúdos entreter-se-á a encostar suavemente o nariz à mão de uma das enfermeiras portuguesas. Com os dedos toca, sensível e levemente. Com uma idade aproximada entre os 10 e os 13 anos, embora com aparência de cinco ou seis, começou, para ele, a aprendizagem do tacto. Por vezes mal se repara que são três por cama. Vê-se que uma das crianças está na cabeceira, outra aos pés, mas sob a cama estão registados três nomes. Levanta-se a manta, e lá do meio surge, de repente, uma cara, normalmente de crianças cegas que buscam segurança debaixo dos lençóis. Surpreendidos ao serem destapados, cheiram e esforçam-se em esgares, que só por aproximação se podem considerar humanos. Para primeira visita, chega. Nessa noite, a equipa portuguesa fica instalada no dormitório do internato de raparigas, dividida em quartos pouco limpos e lençóis sujos, oferta do responsável pelo colégio, que se multiplica em desculpas. Aqueles quartos servem como penitência. Aliviam o complexo de culpa de quem sempre viveu muitos pontos acima daquela condição. “Quando aqui cheguei, a maioria deles nunca tinha saído da cama”, explica Corinne. Grande parte deles está em posição intra-uterina. Mantêm a mesma colocação de pernas e braços de antes de nascer. Nunca evoluíram, dado que nunca foram estimulados para abandonar aposição fetal. Ou, noutras palavras, embora com graves deficiências mentais, aquelas crianças até poderiam andar, caso tivessem sido ensinadas. Agora, quase todos têm deformações nos pés, alguns por deficiências congénitas. Mas em muitos casos trata-se de um comportamento adquirido. (...) agarra nas pernas de uma criança, estica-lhas e mostra as plantas dos pés, virados para dentro. Fora do olhar das “enfermeiras romenas”, e nos poucos momentos que não quer subir para o colo, um miúdo, velho conhecido, mostra orgulhoso uma camisola interior nova. Noutra cama, Ion, uma criança com graves deficiências, invisual, sai debaixo dos lençóis e grita desesperadamente ‘bonjour’. É a palavra com que Corinne o cumprimenta todas as manhãs, em francês. Para Ion, bonjour tem outro significado. Esta palavra que repete enquanto esbraceja à procura de uma pessoa que pressente é sinónimo de carinho, festas, contacto físico. Quando agarra uma mão, ou uma peça de roupa, esfrega-se nela. Como se se tratasse de um tesouro, Ion fica deitado, a tentar detectar um ténue odor que terá permanecido em si. Uma réstia de desodorizante do Ocidente, transformado num indescritível sentimento de felicidade. A lógica do assassínio estatal organizado Os Camin Spital inserem-se numa lógica de assassínio colectivo premeditado. Durante alguns anos, Ceaucescu decretou uma política de natalidade que obrigava todas as mulheres, entre os 12 e os 45 anos, a terem um mínimo de cinco filhos. Os deficientes, os não produtivos, deveriam ser entregues aos cuidados do Estado. Os abortos eram proibidos. Muitas crianças eram abandonadas. Um centro de triagem enviava-as para uma instituição – os Camin Spital. Locais, na sua maioria, longe de qualquer povoação. Sem apoio médico, deficiente alimentação e vestuário, com privação de água e luz. E sem aquecimento no Inverno, quando as temperaturas descem muitas vezes a uma dezena de graus abaixo de zero. As mortes iam sucedendo ‘naturalmente’. (...) ‘Papú! Papú!’ à entrada de uma das salas de jogos, as crianças atiram-se para cima de nós. Lutam e batem-se entre elas para disputar a nossa atenção, enquanto à volta se sente um cheiro nauseabundo. Em Vînjulet não há água canalizada. Um poço para 70 idosos e 56 crianças, que há um mês tomaram banho pela primeira e única vez nas suas vidas. Depois de três dias de convivência com este cheiro, embora não se lhe fique indiferente, já não se acha tão repugnante. Quando nos cercam, torna-se possível olhar em redor. Estamos numa sala degradada, com duas tábuas na parede, a fazer de bancos. Para além da reunião à nossa volta, várias crianças que não podem andar tentam arrastar-se até nós. Nas tábuas, indiferentes a tudo, os autistas balanceiam os corpos. Ao andarmos alguns metros, ficamos com a sensação de ter percorrido 50 anos no tempo. É como se, de repente, víssemos aquelas crianças – as ‘sobreviventes’ – projectadas no futuro, já na fase terminal da vida. Homens e mulheres no mesmo quarto. Manchas de urina cobrindo quase a totalidade dos lençóis, o cheiro das fezes misturado com o do tabaco. Quando os habitantes da ala das crianças atingem os 18 anos transitam para esta parte. Ao fundo, de pé, junto da janela, está uma velha desguelhada. A seu lado, sentado numa cama, mexe-se alguém que aparenta ser um miúdo de 8 anos. Autista. Balança-se para a frente e para trás, a um ritmo alucinante, enquanto murmura um som. Aqui? ‘sim, claro, tem 23 anos’. (...) Por fim, um olhar pelo quarto dos ‘violentos’, pacificados pelo efeito de fortes sedativos. Esgotados os objectivos, restam apenas duas palavras: nojo e miséria. Pelo corredor, antes de se atingir o gélido e purificado ar romeno, ainda se ouvem gritos."
Para conhecerem parte da história do rapaz da foto: http://www.hopeandhomes.org/story%204.htm

Thursday, June 15, 2006

Vínculos...

"Distingo os conceitos de relação e de vínculo. Há relações em que não existem vínculos emocionais verdadeiros e noutras há vínculos apesar de não existir nenhuma relação real" Franz Ruppert E eu perdi esta conferência... se alguém foi.. conte-me..

Auto-retrato

"Todos os artistas que fizeram o seu auto-retrato ao longo dos tempos não foi porque se achassem particularmente belos ou interessantes mas porque assim avaliavam o seu grau de passagem. Eu escrevo o meu nome."

Friday, June 09, 2006

Homens No perfil agudo dos quartos Nos ângulos mortais da sombra com a luz. Vê como as espadas nascem evidentes Sem que ninguém as erguesse - de repente. Vê como os gestos se esculpem Em geometrias exactas do destino. Vê como os homens se tornam animais E como os animais se tornam anjos E um só irrompe e faz um lírio de si mesmo. Vê como pairam longamente os olhos Cheios de liquidez, cheios de mágoa De uma mulher nos seus cabelos estrangulada. E todo o quarto jaz abandonado Cheio de terror e cheio de desordem. E as portas ficam abertas, Abertas para os caminhos Por onde os homens fogem, No silêncio agudo dos espaços, Nos ângulos mortais da sombra com a luz. Sophia de Mello Breyner Imagem de David Ho

Speechless

by Artemisia

Tuesday, June 06, 2006

Bertolt Brecht

Of no account at all How you look. But what you have seen And what you reveal does count. It is worth knowing what you know. They will watch you To see how well you have watched. But one who observes only himself Gains no knowledge of men. Form himself he hides too much of himself And no man is wiser than he had become. Therefore your training must begin among The lives of other people. Make your first school The place you work in, your home, The district to which you belong, The shop, the street, the train. Observe each one you set eyes upon. Observe strangers as if they were familiar And those whom you know as if they were strangers
To observe you must learn to compare. To be able to compare You must have observed already. From observation comes knowledge. But knowledge is needed to observe. He who does not know What to make of his observation Will observe badly. The fruit grower will look at the apple tree With a keener eye than the strolling walker. But only he knows that the fate of man in man Can see his fellow men keenly with accuracy.
All this watch closely. Then in your mind's eye From all the struggles waged Make pictures Unfolding and growing like movements in history.

Monday, June 05, 2006

«Pelo menos devo sentir-me agradecida por não ter esse género de preocupação na minha família» Pensei cá para comigo: «Isto não é sentir-se agradecida, é uma desculpa! O mesmo tipo de raciocínio que as pessoas utilizavam na China. Olhar para a desgraça dos outros para já não terem de pensar nos seus próprios problemas». Porque havemos de comparar a nossa vida dessa maneira? Este tipo de raciocíonio só nos faz sentir receosos. Pensa-se apenas no que mais se pode perder, sem esperar algo de melhor. Se eu pensasse desse modo na China, ainda lá estaria. Porque vi muitíssima gente com vidas piores que a minha." Amy Tan

Friday, June 02, 2006

«Abre a porta, que já podes ver a montanha» - é um ditado clássico que significa que a pessoa está pronta para agarrar todas as oportunidades e transformá-las em qualquer coisa de grande. (...) «Vamos além da montanha». In A Esposa do Deus do Fogo, Amy Tan

A propósito de crianças e de adultos

E foi então que apareceu a raposa: - Bom dia, disse a raposa. - Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada. - Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira... - Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita... - Sou uma raposa, disse a raposa. - Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste... - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda. - Ah! desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acrescentou: - Que quer dizer "cativar"? - Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras? - Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"? - Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incómodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas? - Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"? - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..." - Criar laços? - Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... - Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou... - É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra... [...] - A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!