Sunday, January 29, 2006

A amizade não tem posicionamento...

A culpa é da Dirim. Enviou-me para a caixa de correio e agora estou com um sorriso cúmplice...
People are strange when you’re a stranger
Faces look ugly when you’re alone
Women seem wicked when you’re unwanted
Streets are uneven when you’re down
When you’re strange
Faces come out of the rain
When you’re strange
No one remembers your name
When you’re strange

A separação física esbate-se quando a caixa de correio apita com missivas plenas de reconhecimento da outra (do que a outra é, do que a outra sente). Dirim está comigo quando me envia Doors e eu estou com ela quando lhe envio Damien Rice.
(Fotografia de Man Ray)

Friday, January 27, 2006

Poética I

De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo. A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é o meu norte Outros que contem Passo por passo: Eu morro ontem Nasço amanhã Ando onde há espaço: - Meu tempo é quando. de Vinicius de Moraes

Privilégios...

No debate mensal do Parlamento com o primeiro-ministro:
"Sim... porque isto de ser português é um privilégio... ser português não é para qualquer um!", afirmou um deputado do CDS-PP...
Sem dúvida.. um privilégio que, quiça, deveria ser retirado a alguns deputados... eu cederia o meu privilégio de bom grado... e estou certa de que toda a Escandinávia, para não falar dos britânicos, franceses e muitos mais, passariam ao lado - não sem um certo desgosto, com certeza - deste tão inflamado privilégio. É que quando os privilégios implicam ter preços europeus e ordenados do terceiro mundo (não, não é do quarto), quando temos o privilégio de ser o país da UE com a maior taxa de abandono escolar, com a maior taxa de insucesso escolar, com a menor taxa de licenciados, com a maior desnível entre ricos e pobres. Não esquecendo, evidentemente, do privilégio de ter um político que dá pelo nome de Alberto João Jardim... então, senhoras e senhores... quem é que pode questionar a frase do senhor deputado?

Tuesday, January 24, 2006

Tipificações

Admito que detesto tipificações. "Há pessoas assim, assado". As positivas, as optimistas, as negativistas, as pessimistas, as depressivas, as blá, blá, blá, como se duas únicas metades constituissem o mundo e estivessem de costas voltadas.
Ocorre-me, no entanto, pensar que, se calhar, só mesmo por uma breve e maléfica brincadeira divina (não de deus, ou da deusa, mas da evolução) @s defensor@s desta simplista teoria até poderão ter razão após ouvir a história de uma rapariga que tinha perdido o seu companheiro (este tinha cometido suicídio). Ela chorou a sua perda. Deitou todas as lágrimas que tinha até se sentir vazia, até atingir o estádio da tábua rasa que aprendemos em filosofia. Depois decidiu reaprender tudo de novo. Procurou um trabalho. E foi precisamente porque tinha esquecido tudo o que aprendera anteriormente que respondeu a um daqueles anúncios dos quais a maior parte das pessoas sensatas foge: "quer ganhar 1500€ numa semana? Não é para distribuir circulares". Ninguém com o senso todo responde a um anúncio destes. Mas ela respondeu. Começou a trabalhar. E a ganhar dinheiro. Muito dinheiro. Tem a ambição de abrir o seu próprio negócio e as coisas correm-lhe muito bem. Não que já esteja a ganhar 1500€ por semana, mas já atinge esse valor mensalmente. E continua no seu processo de aprendizagem.
Fiquei a pensar que ainda que fosse uma daquelas pessoas consideradas negativistas, pessimistas e mais não sei o quê a responder áquele mesmo anúncio, a ter aquele mesmo trabalho, teria começado e após uma ou duas semanas teria desistido. Não por ser pessimista ou negativista ou lá o que seja. Não por não acreditar, mas por não conseguir esquecer tudo o que tinha dentro de si. Todos os ensinamentos que lhe diziam que nada daquilo era verdade, que as coisas têm que ser difíceis para serem verdadeiras, e que ninguém dá nada de graça.

Monday, January 23, 2006

Le pire

"Un jour, quelqu'un part, et tarde à revenir. Et quand la sonnette retentit enfin, le monde a basculé. Plus tard, un homme et une femme se retrouvent dans cette maison et se voient vraiment pour la première fois. L'un l'a voulu, l'autre non. L'un veut parler, l'autre pas. Difficile d'être dans la même maison quand on ne veut pas les mêmes choses."
Ela deixou-lhe uma carta anunciando que ía partir para viver um amor, que mais tarde confessará ser demasiado intenso "o meu corpo não era suficiente para o absorver".. mas era um amor que lhe provocava o desejo de ser sugada pelo sangue do outro. Mas talvez pela insuportabilidade da intensidade daquele amor - do único amor que conhecera - voltou para trás, para a casa que conhecia há dez anos. Quando ele lhe pergunta: "então... a carta não é o pior?", ela responde-lhe: "o pior foi ter voltado". Ele não suportará a inexistência do amor. Mais que isso, não suportará olhar para a mulher que julgava conhecer tão bem quanto a si próprio e encarar a evidência de que nunca se conhece alguém.

Há dois dias...

the shorter story no love no glory no hero in her skies did I say that I loathe you? did I say that I want to leave it all behind?

E de quem é a culpa?... da Woman Once a Bird que me iniciou no caminho de Damien Rice... um obrigada muito especial :)

Sunday, January 22, 2006

"Os diamantes são os melhores amigos da mulher."

Já não se fala da guerra na Serra Leoa. No entanto os meninos soldados continuam a lutar noutros conflitos da zona. As causas dessa guerra continuam aí, pelo que a paz é precária. E por essas causas os meninos soldados, de infâncias roubadas pelos interesses ocidentais e líderes africanos, continuam a ser recrutados e instruídos pela violêcia. Meninos e meninas servem como moeda de troca por diamantes, escravizados e convertidos à prostituição. Ainda que sejam os nativos africanos que morrem nesses conflitos, as armas e o dinheiro chegam da economia ocidental; e as riquezas seguem rumo às multinacionais estrangeiras. Ainda que, tão pouco se possa falar da ingenuidade dos líderes africanos, pois são eles que pactuam com as multinacionais. As armas são pensadas e fabricadas com as características ideais para o uso e manuseamento de uma criança, como se de um brinquedo se tratasse. Propor um plano de ajuda para um continente como África não será fácil. No entanto, a solução não estará de trás das secretárias das capitais ocidentais, a quilómetros de distância da realidade e cultura africana. É possível que da Europa possa sair a solução humanitária e a ajuda ao desenvolvimento económico de África, mas não enquanto for sinónimo de diamantes, petróleo e futebolistas. PS o título é do conhecimento público de Marylin Monroe; o texto está baseado numa entrevista que li - como tantas outras entrevistas e reportagens sobre África. Desta vez decidi fazê-lo pela indignação que sinto e por respeito às pessoas como o C. Caballero que vive hà 14 anos na Serra Leoa e se dedica a esses meninos soldados, tentando ensinar-lhes outros verbos que não os da violência.

Wednesday, January 18, 2006

Arrepios e malas de viagem

Estão a ver aquele anúncio de um comprimido que nos querem fazer crer ser milagroso para as constipações? Sim, um tal de cêgripe? Aquele em que a marca nos presenteia com um telefonema entre um cachopo e a mãe? Sim, o tal em que a criatura já tem idade para viajar - e namorar -, mas por sinal não tem idade para preparar a mala da viagem, nem inteligência para se tratar de uma constipação? O tal, em que após um espirro, a mãe lhe diz: "vê lá no fundo da mala...". Já estão a ver qual é? Pois, esse exemplo de grande criatividade publicitária! Esse mesmo... será que só a mim é que me dá arrepios (e não, não preciso de cêgripe - aparentemente já consigo preparar a minha própria mala de viagem...) de ver um estereótipo, mais uma vez, mais do que sublinhado? Só esperava que a mãe lembrasse igualmente a criatura de que tinha posto os preservativos no bolso do casaco do rapaz.... será que era mesmo necessário representar o indivíduo como o menino da mamã que precisa da mesma para lhe ir inspeccionar a mala de viagem?? Que falta de imaginação...nestas alturas é que me pergunto se é mesmo justa a frase de que temos a televisão (e os respectivos conteúdos) que merecemos..

Silêncio e Existência

Ninguém posta por aqui? Está tudo em greve ? Alguma luz anda a encegueirar o gato? Suspenso por um fio?

Thursday, January 12, 2006

Quando Belém era concelho...

Só para recordar como a geografia política interna muda com uma facilidade tão pouco proporcional à dos bairrismos dogmáticos e limitados que parecem ser eternos...

Sunday, January 08, 2006

The Sound of Silence

Que se oiça então o som do silêncio e que este seja suficiente para preencher o vazio.

Diferenças

"Médicos do mundo" respondeu quando lhe perguntei qual a ONG que a levava nesta missão. Já tinha apanhado malária por duas vezes. Explicava que 48 horas a separavam de Timor Lorosae, contando com as escalas. Tinha um ar cansado e uma barriga que não evidenciava os seis meses de gravidez. Ia ficar com as pernas inchadas pela viagem. Sentia-se isolada, confessou. Mas não desistia. Invejei-lhe aquele olhar determinado de quem sabe o que quer e o faz. Invejei-lhe a coragem e a perseverança.

Ao meu lado, uma outra de diferente calibre. Detestei-a a partir do momento em que puxou dos galões e afirmou "porque eu sou advogada e..." - para justificar que teria razão numa pequena querela que nada tinha a ver com direito. Provocou-me asco quando admitiu: "sou um bocadinho racista à noite". A perfeita burguesa que mora no condomínio privado e de risinhos entrecortados.

O tempo dos teus anos...

Hoje é o dia em que possivelmente Isabel Allende senta-se a uma secretária e, de caneta em punho (gosto sempre de imaginar que ainda se escreve em papel), rabisca as primeiras palavras de um novo livro. E lembro-me disto porque, há uns anos, soube da deliciosa coincidência de que Isabel Allende tem data marcada com as palavras na data que coincide com o dia do princípio da existência de uma outra Isabel, com jeito para a pena e com alma inquisitiva.
E é para ela, na falta de palavras minhas (??), que endereço as de outro...

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. (...). Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar."(Bernardo Soares)

Porque também ela gosta de palavrar...

Saturday, January 07, 2006

Outras histórias de Natal (as origens)

O dia de Natal celebra-se a 25 de Dezembro nos países cristãos. É a tradição. ... uma boa ocasião para divertir-se, comer coisas especiais e estar entre família e amigos. Ritual muito antigo que sofreu muitas transformações culturais no decorrer de vários séculos. A palavra “Natal” vem do latim “Natalis” que significa “o dia do nascimento”. Durante os primeiros séculos da era cristã não existia nenhuma data exacta para comemorar o nascimento de Cristo (6 de Janeiro, 28 de Março, 19 de Abril ou 29 de Maio foram eleitos como referência….). Foi no ano 354 quando o Papa Liberus fixou 25 de Diciembre como data oficial do nascimento de Cristo. Esta data foi eleita para avivar a fé dos cristãos: coincidia com uma das festas pagãs e agrícolas mais importantes: o solstício de Inverno. Assim começaram a misturar-se ritos pagãos e cristãos que seguiram enriquecendo-se com o tempo. A tradição da árvore de Natal vem da Alemanha. O seu uso estendeu-se a toda a Europa por volta de 1840. É o resultado de uma ideia engenhosa da Rainha Victoria de Inglaterra. Como o seu marido o rei Alberto era alemão, ela quis celebrar a noite de Natal como na Alemanha… e decorou o grande salão do palácio de Windsor com um abeto decorado de multiplas decorações e velas. Pai Natal Sabes que a imagen actual do Pai Natal, o avô corpulento vestido de vermelho com uma longa barba branca, foi inventada nos Estados Unidos? Foi um pastor americano, Clement Clarke Moore, quem deu ao Pai Natal a aparência que conhecemos num conto de Natal que escreveu em 1821. Existe uma lenda que conta que o Pai Natal poderia ser o “quarto rei mago”. Diz-se que se perdeu durante a viagem ao encontro do Menino Jesus e que como renunciou a encontrá-lo, distribui as prendas por todos os meninos e meninas que se cruzam no seu caminho. Na Suécia, mantêm a árvore decorada e com luzes até 20 dias depois do Natal. Em Itália existe a lenda da bruxa Befana, que varria a sua casa com a vassoura quando passaram os Reis Magos convidando-a a ir a ver a Jesus. Ela não aceitou, e até hoje se arrepende, pelo que cada ano reparte prendas aos meninos no dia 5 de Janeiro. O fenómeno astronómico que levou aos Reis Magos a viajar até ao Menino Jesus foi descrito como uma supernova ou uma conjunção de planetas. Os nomes originais dos três Reis Magos desconhecem-se completamente. Os nomes Melchor, Gaspar e Baltasar aparecem por primera vez por volta do século VII num Registo da Biblioteca de Paris. As luzes de Natal foram usadas pela primera vez em 1895, graças ao americano Ralh E. Morris, pois eram mais seguras que as velas tradicionais. A lenda da árvore de Natal nasce na Alemanha, na primeira metade do século VIII, quando San Bonifácio, um missionáro britânico, se encontrava a predicar um sermão para convencer aos druidas de que o roble não era sagrado e derrubou um, justo no dia de Natal. O roble destroçou tudo o que estava no seu ângulo ao cair, no entanto salvou-se um pequeno abeto. San Bonifácio representou isto como um milagre e chamou-lhe por isso "a árvore do Menino Deus".

Friday, January 06, 2006

Dia de Reis: Vamos cantar as janeiras!

NATAL DOS SIMPLES
Vamos cantar as janeiras Vamos cantar as janeiras Por esses quintais adentro vamos Às raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas Vamos cantar orvalhadas Por esses quintais adentro vamos Às raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte Vira o vento e muda a sorte Por aqueles olivais perdidos Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra Muita neve cai na serra Só se lembra dos caminhos velhos Quem tem saudades da terra Quem tem a candeia acesa Quem tem a candeia acesa Rabanadas pão e vinho novo Matava a fome à pobreza Já nos cansa esta lonjura Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos Quem anda à noite à ventura
Zeca Afonso

Thursday, January 05, 2006

Palmeira

Aqui fica mais um bocadinho de África. Um excerto um tanto longo, mas...
"...fui ontem ver o mar. E o mar não era de prata, nem de azul. Era de mar somente. Mar-mar, cheio de si mesmo e água salgada. E havia ondas, e tudo era tépido numa carícia larga. Peixes saltando esguias danças de caça aos mosquitos. Depois, foi o caso daquela palmeira, raízes esventradas, erguendo-se inteira por dentro do mar. Nem mesmo a criança nua apagou dos olhos o verde das palmas por sobre as águas salinas. A palmeira (seria coqueiro?) era só no mar. Só e viva contra a lei que afirma que o sal mata o verde das plantas!... E ela lá continua, nasceu ali mesmo e foi crescendo. Hoje é adulta e nunca de lá saiu. Em pleno território de algas, anémonas e peixes ergue-se uma palmeira (coqueiro?), altaneira e segura. E quanto mais o mar esventra as raízes, mais fundo ela cava, mais fundo se firma, e mais ao alto se ergue. Hoje divido contigo a emoção da palmeira, cônscio de ta não dar inteira. Divido pelo prazer de dividir... contigo. A palmeira há-de lá estar até que desista e caia na cova funda do mar que a desejou inerte. Se viveu? É solitária e sábia como o silêncio. Nem mesmo o vento a demoveu. Tremeu, rangeu, gritou dores de pedaços arrancados, mas com o corpo em chaga ficou, fiel e firme, no alento cálido das palmas ondeando na brisa. Quando a chuva veio, abriu clorofila e bebeu, trágica na sede, sorrindo ao sol por entre as nuvens. Ela lá está, olhando o longe, gesto quieto na mansidão perpétua. Nada faz para sair, mas tudo para ficar. Amar a terra agreste, salobra e agressiva é o seu mister. Por isso ali fica, solene, vestida de cicatrizes, brincando nas ondas que brincam no corpo erguido e estranho. Mística, acorda ao romper da lua, deixando-se bela na sombra que a noite pinta o ondear sobre o mar. Mira-se, vaidosa, no espelho pintado de luar e para ali fica, eternidade sem flores, nem frutos, nem. Assexuada, como a solidão impõe, cresce deusa e morrerá musa. E quando as estrelas iniciam o cintilar da noite, ela já lá estava esperando-as. Lestas as estrelas atiram clarões de lumes velozes e seguros, mas já lá acham a palmeira, serena e bela, em sua espera. Condenada a viver longe das outras, ela se afastou, suave e tímida, recusando-se. Entrou no mar e ali ficou para sempre palmeira-solitária. Mas quando na noite o marulhar das folhas anuncia o despertar para o gosto do amor das palmas comunitárias roçando-se lascivas, ela contempla estrelas de pés banhados na mansidão marinha. Recusaram-lhe o gesto, mas sobra-lhe poesia."
Autor: Afonso Milando Título: Malungo solitário

Wednesday, January 04, 2006

Green Street Hooligans

"I've never lived closer to danger, but I've never felt safer. I've never felt more confident, and people could spot it from a mile away. And as for this, the violence? I gotta be honest - it grew on me. Once you've taken a few punches and realize you're not made of glass, you don't feel alive unless you're pushing yourself as far as you can go".
A acção decorre em Londres. Retrata um grupo - eufemisticamente chamado de firm - adepto de um clube de futebol e que se envolve em confrontos físicos após os jogos.
"Pensa em alguém que detestes". Esta foi a frase que ajudou o ex-mr. Frodo - recém chegado dos EUA - a participar numa luta de gangs pela primeira vez.

Mais tarde, ele dirá: "uma vez que percebemos que não somos feitos de vidro, queremos ir até ao limite". Sorvi aquelas palavras. Mais uma vez, à semelhança, do que tinha sentido no Fight Club, fiquei convicta de que a violência física pode ser um escape para as tensões quotidianas. Tive vontade de experimentar. Nem mesmo as repetidas imagens em que o sangue escorre dos narizes partidos ou salta das bocas de lábios rasgados e os rostos desfigurados de tanto apanhar me fizeram vacilar. Aliás, só me fez lembrar como é que, segundo Hollywood, as mulheres não sangram quando estão envolvidas em confrontos físicos. Não há cá camisolas ensanguentadas, bocas a espirrar sangue ou narizes a escorrer... Não, quando as mulheres lutam, o set permanece clean, de cores onde o vermelho não tem lugar. Como que para lembrar que na vida real as mulheres não lutam. Para tirar ainda mais realismo à coisa. Claro, há a excepção de One Million Dollar Baby - onde seria escandalosamente irreal se uma pugilista não sangrasse depois de apanhar com uma luva de boxe na cara.

A estória de Green Street Hooligans, com um mr. Frodo de olhos esbugalhados a aprender a lutar - to fight back - nas ruas britânicas despertou-me sentimentos ambíguos. Por um lado, parece ser um filme de reabilitação dos gangs de claques, por outro parece ser uma estória de aprendizagem de coragem e de amizade.
O GSE - o nome da firm - é constituído por gente tão normal que a sua única anormalidade é mesmo que pessoas com alguma formação utilizem o futebol - apesar das tatuagens no peito - como argumento para se desforrar no gang rival. Os membros do grupo (clube tipo menina não entra) são (pasme-se) professores, assistentes de bordo ou correctores de bolsa. E também são profundamente xenófobos e dogmáticos - mr. Frodo tem problemas de integração não só por ser um novato, mas por ser estado-unidense. A palavra jornalista provoca reacções de ódio extremo. É uma nova raça - a abater. Mas sem haver grande explicação das eventuais mentiras dos media. Estes são odiados porque condenam as acções de violência dos grupos e "por só dizerem mentiras". Os negros que constituem um dos grupos rivais são pejorativamente apelidados de Zulus. No GSE não há negros.

Green Street Hooligans reabilita os gangs - ou de certa forma a violência - porque termina com mr. Frodo a enfrentar o seu ex-colega de quarto de Harvard - um miúdo sem sal, bem nascido e totalmente agarrado à coca e que tinha sido responsável pela expulsão de mr. Frodo da prestigiada universidade. No final, vemos como consegue ameaçar fisicamente o ex-colega, encostando-o à parede e levantando o punho fechado.
Claro que é totalmente redutor afirmar que o filme é somente um apelo à aprendizagem da violência gratuita. É profundamente misógino também. As mulheres têm aparições naquela sociedade. Na escola há miúdos. Nas ruas há homens, nos estádios também. Das poucas imagens onde surgem elementos do sexo feminino, só uma é suficientemente importante para lhe sabermos o nome: Shannon. E claro, ela é redentora. Ela salvou um antigo membro - com o amor. Mais uma vez, a apologia de que o amor salva. E este filme é estranhamente misógino. Não só porque na realidade, há mulheres nas claques e entre @s arruaceir@s que provocam distúrbios nas ruas, como também elas são motoras de violência - nas infelizes manifestações da extrema-direita elas lá estão para provar que a imbecilidade não tem género, e a sua presença em grupos que espalham violência gratuita já foi documentada por diversas vezes (de resto, há uma dezena de anos, um dos gangs que aterrorizava @s passageiros dos comboios da linha de Sintra era liderado por uma miúda). Por outro lado, os homens deste filme têm como motor de vida a reputação - uma ideia irónica, já que esta terá sido de sobre-importância para a vida das mulheres. Por sinal, para alguns homens também.
O líder do grupo tem sentimentos humanos: é solidário. Contrastando com a imagem inicial de um idiota que vive para bater em alguém, a meio do filme assistimos a cenas em que ele brinca com os alunos. Vêmo-lo a sacrificar-se para proteger a família do irmão e a proteger mr. Frodo em provas de amizade. É totalmente reabilitado no final, através do sacríficio a que se submete. Os restantes membros do grupo parecem ter uma vida que oscila entre o trabalho e o bar onde se reúnem para beber e claro... os confrontos...
Vemos mr. Frodo dizer que transpira confiança após uma luta, ao angariar admiração, enquanto assina uns autógrafos às poucas raparigas que se podem ver no bar do grupo. Sabemos também que o mais importante a certa altura não é ele sentir-se protegido pelo grupo, mas saber que pode proteger. Ou seja, é a apologia do controlo do corpo e do medo. Do total controlo das variáveis externas e da negação do medo tantas vezes confundido com cobardia. Mr. Frodo finalmente transforma-se num homem de verdade. Mas onde ele se sente integrado, protegido e com vontade de proteger é de onde surgem as traições, os julgamentos sem que haja lugar a uma só pergunta. E nem após as provas dadas, mr. Frodo consegue escapar à tacanhez do medo e do ódio que o grupo tem pelos jornalistas. Não interessa que ele não seja um deles. É filho de um deles, o que o torna indigno para o grupo. Uma ameaça. Um alvo a abater. Neste caso, não há lealdade ou amizade possível.
Mas será Green Street Hooligans uma história de amizade e lealdade? Também, mas não só. Sleepers ou Stand by me são outros exemplos de amizade e lealdade. Diferentes, porque naqueles casos, a amizade é construída desde criança. Mas existe, está lá, sempre aliada a um forte sentimento de lealdade. Mas lealdade a quem? Aos amigos? Ou ao grupo e à sua reputação?

P.S: Elijah Wood interpreta um Matt Buckner acabadinho de ser expulso de Harvard a dois meses de obter o diploma de jornalismo e não um novo mr. Frodo. A razão pela lhe chamo mr. Frodo é porque ainda não o consegui separar do personagem dos pés felpudos, from the Lord of the Rings.

De como Sócrates tinha razão ...

Quando em plena campanha eleitoral o nosso ilustre Primeiro Ministro apregoava a necessidade de um choque tecnológico, confesso que sempre o ouvi com certa desconfiança. Afinal de contas, o homem limitava-se a apregoá-lo sem explicitar os seus trâmites. Após as eleições, os meus receios acentuaram-se, porque as novas palavras-chave do Executivo ficavam-se por "Crise" e "os ladrões que trabalham na Função Pública". Nada de choque tecnológico, portanto! Mas tal situação alterou-se radicalmente em Setembro...
A primeira vez que tive oportunidade de aferir da justeza da máxima de campanha do nosso ilustre Sócrates, ocorreu numa das minhas primeiras aulas do presente ano lectivo.
Efectivamente, foi um choque para mim e para os meus alunos, verificar que a única sala disponível (para a aula de 90 minutos) é a que passo a descrever: as mesas estão encostadas à parede com enormes pc's. Os alunos sentam-se (voltados para a parede) e tentam encaixar os cadernos e livros entre o teclado e o rato. E eu? Eu estou do outro lado da sala. Assim, não só dou aulas de filosofia como também de ginástica localizada, na medida em que os meus discentes têm que girar na cadeira de cada vez que querem ter contacto visual comigo ou com o quadro.
Afinal de contas, o nosso engenheiro tinha toda a razão (não é inocente o homem chamar-se Sócrates). Eu e a minha turma, todas as semanas, temos um choque tecnológico só para nós!

A música do dia: Into my arms

I don't believe in an interventionist God But I know, darling, that you do But if I did I would kneel down and ask Him Not to intervene when it came to you Not to touch a hair on your head
To leave you as you are And if He felt He had to direct you Then direct you into my arms Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms
And I don't believe in the existence of angels But looking at you I wonder if that's true But if I did I would summon them together And ask them to watch over you
To each burn a candle for you To make bright and clear your path And to walk, like Christ, in grace and love And guide you into my arms Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms
And I believe in Love And I know that you do too And I believe in some kind of path That we can walk down, me and you So keep your candlew burning And make her journey bright and pure That she will keep returning Always and evermore Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms, O Lord Into my arms
Nick Cave - Into My Arms

Tuesday, January 03, 2006

De volta... com Agostinho da Silva!

Este ano tive no sapatinho uma agenda linda do Professor Agostinho da Silva, editada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda em colaboração com a Associação Agostinho da Silva. É uma agenda que visa também comemorar os 100 anos do nascimento do Professor e, para além disso, é uma belíssima obra com dados biográficos, pensamentos, testemunhos dele e de amigos.
"Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; [...] Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem"
Sete Cartas a um Jovem Filósofo (1945)

Monday, January 02, 2006

"O mundo é para quem nasce para o conquistar/ E não para quem sonha que pode conquistá-lo"

Agora que já ultrapassamos toda esta época crítica - em que toda a gente felicita, congratula, abraça, beija, dá palmadinhas nas costas... enfim, quando toda a gente de sorriso rasgado nos lábios proclama o seu amor ao próximo até à madrugada do dia 1 - dizia eu, agora que ultrapassamos toda esta fase, coloco algumas questões que me assaltam invariavelmente ano após ano, nesta época tão histriónica. É que ainda não percebi porque toda a gente se põe a fazer balanços por esta altura; são os políticos do ano, as frases do ano, os filmes , as músicas, os livros e, pasme-se, agora elegem-se também os blogs, como se se conseguisse afirmar taxativamente quais os melhores (ou os piores). Na verdade, todo este exercício parece-me querer, de certo modo, atingir o mito da omnisciência que nos persegue (humanos) desde que nos conhecemos gente. É que é a velha história de querer transcendermo-nos e nada melhor para o fazer do que estes balanços em que afirmamos conhecer o que de melhor e de pior se fez. Fazêmo-lo de ano a ano, que ainda assim a tarefa é hercúlea (já para não dizer o óbvio, ou seja, que é falaciosa). Se na maior parte dos casos falamos de obras artísticas, porquê taxá-las ao ano? E se me apetecer dizer que a melhor obra musical do ano (porque efectivamente a ouvi NESTE ano) é o Prelúdio de Tristão e Isolda de Wagner? Mais, posso até querer afirmar que nos últimos cinco anos, o Prelúdio de Tristão e Isolda foi, consecutivamente, a melhor obra musical que ouvi. E depois? E que dizer de todas aquelas que desconheço, existem e que são obras primas em potência para os meus ouvidos? Porque hei-de afirmar que abraço O MUNDO quando apenas ponho os braços em volta daquilo que é o meu mundo(inho)?
(O título dado ao post foi roubado a Álvaro de Campos. Suponho que ele não se importe.)

Sunday, January 01, 2006

Here comes the rain...

e eu com roupa estendida lá fora....