Saturday, July 29, 2006

Para além dos ramos

Porque é sempre bom ver coisas bonitas, esta e outras fotos podem ser vistas aqui.

Um poema, porque sim...

Aprendi este poema há mais de 13 anos, quando a minha professora de Português o levou para a sala de aula. Desde então que o sei de cor e nunca me farto de o relembrar: Alicante Une orange sur la table Ta robe sur le tapis Et toi dans mon lit Doux présent du présent Fraîcheur de la nuit Chaleur de ma vie. Paroles, Jacques Prévert

Wednesday, July 19, 2006

If Clause

Na noite terrível, substância natural de todas as noites, Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro, velando em modorra incómoda, Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida. Relembro, e uma angústia Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo. O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver! Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão. Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte. Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures, Na ilusão do espaço e do tempo, Na falsidade do decorrer. Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o quem sequer sonhei; O que só agora vejo que deveria ter feito, O que só agora claramente vejo que deveria ter sido -Isso é que é morto para além de todos os Deuses, Isso - e foi afinal o melhor de mim - é que nem os Deuses fazem viver.... Se em certa altura Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita; Se em certo momento Tivesse dito que sim em vez de não, ou não em vez de sim; Se em certa conversa Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -Se tudo isso tivesse sido assim, Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro Seria insensivelmente levado a outro ser também. Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido, Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo; Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse; Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas, Claras, inevitáveis, naturais, A conversa fechada concludentemente, A matéria toda resolvida....Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói. O que falhei deveras nem tem esperança nenhuma, Em sistema metafísico nenhum. Pode ser que para o outro mundo eu possa levar o que sonhei, Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar? Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver. Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos, Nesta noite em que não durmo, em que o sossego me cerca Como uma verdade que não partilho, E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível para mim. Álvaro de Campos, 1928

Monday, July 17, 2006

Sisterhood

"There is a new force, a new understanding, a new sisterhood against all injustice that has born here. We will not be divided and defeated again" Coretta Scott King, na Conferência Nacional das Mulheres, 1977

ERA

Um ano após o 25 de Abril, As Nações Unidas declaram 1975 o ano Internacional das Mulheres - celebração que será prolongada pela década seguinte. Dois anos depois, os EUA organizam a Conferência Nacional das Mulheres - a única patrocinada pelo governo federal - para celebrar a efeméride e para identificar objectivos para a próxima década. Em simultâneo, exige-se a ratificação da ERA - Equal Rights Amendment, cujo texto - proposto inicialmente em 1972 - é o que se segue:
SECTION 1 - Equality of rights under the law shall not be denied or abridged by the United States or by any State on account of sex.
SECTION 2 - The Congress shall have the power to enforce, by appropriate legislation, the provisions of this article.
SECTION 3 - This amendment shall take effect two years after the date of ratification."
A esposa do líder do KKK, afirma a propósito da ERA "os comunistas estão por trás da ERA. Falharam ao tentar controlar o país através dos pretos e agora estão a tentar fazê-lo através das mulheres" - decididamente, a estupidez não tem género - a referida senhora reclamará ainda que a organização da conferência de Houston tentou intimidá-la ao colocá-la num alojamento conjunto com lésbicas negras.
O movimento pró ERA - Equal Rights Amendment - falha e o texto permanece, até hoje, fora da Constituição estado-unidense.
Imagem de Mcnight (Sisterhood)

Monday, July 10, 2006

Primeira epístola a Dirim

Muitas vezes, não é necessário buscar muito longe. Nas palavras cristalizadas de outros obtemos muitas vezes uma chave que podemos torná-la absolutamente nossa, adequando-a como instrumento para abertura ao mundo; e assim obtemos uma filosofia viva, desempoeirada das prateleiras mais altas e maioritariamente esquecidas. É necessário trazer a palavra à existência (tal como é necessário emprestar também a existência à palavra). Traduzi-la em nós e para nós...
Da dúvida como método... "... jamais receber por verdadeira coisa alguma que eu não conhecesse evidentemente como tal: isto é, o de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; de não compreender nada mais nos meus juízos senão o que se apresentasse tão claramente e distintamente ao meu espírito que não teria qualquer ocasião de o pôr em dúvida."
Descartes, Discurso do Método
“Vou supor, por consequência, não o Deus sumamente bom, fonte de verdade, mas um certo génio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto, que pusesse toda a sua indústria para me enganar. (…). Por conseguinte, suponho que é falso tudo o que vejo. Creio que nunca existiu nada daquilo que a memória enganadora representa. Não tenho, absolutamente, sentidos; o corpo, a figura, a extensão, o movimento e o lugar são quimeras. Então, o que será verdadeiro? Provavelmente uma só coisa: que nada é certo.”
Descartes, Meditações Sobre a Filosofia Primeira
No início era...
"... entendendo agora agora dedicar-me apenas à busca da verdade, pensei ser necessário (...) rejeitar como absolutamente falso tudo aquilo em que eu pudesse imaginar a mais pequena dúvida (...). Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, quis supor não existir coisa alguma que fosse tal como eles a fazem imaginar. (...). Mas logo de seguida me dei conta de que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, se impunha necessariamente que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade, eu penso logo existo, era tão firme e tão segura que (...) julguei que a podia receber sem escrúpulo como primeiro princípio da filosofia que eu procurava.
Descartes, Discurso do Método
"You are the newest gleam jewel he wants to conquerer to join his crown. Then he will take its shine off just like he has done to others.... and certainly they've become a shadow of what they were.. and a shadow which has been made according to his needs"

E.S.

Imagem tirada do Alma Nómada

Saturday, July 08, 2006

Hamlet em Sintra

Hamlet

de William Shakespeare

encenação de Rui Mário

6 de Julho a 9 de Setembro

Quinta a sábado: 22h; Domingos: 20h

Quinta da Regaleira - Sintra

Mais informações em www.tapafuros.com

Friday, July 07, 2006

E tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que tinha lido

Chegava ao mês de maio e era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível e era só querer

Ruy Belo
Foto de I.V.

Quero um espelho destes...

Wednesday, July 05, 2006

Stereotype

"The World outside and the pictures in our heads"
Lippmann (1922)

Monday, July 03, 2006

Os anjos não existem. São erros semânticos. In contos de Eva Luna, Isabel Allende
Maria, a tonta, acreditava no amor. Isso fez dela uma lenda viva. In Contos de Eva Luna, Isabel Allende
Foto de Roberto Escobar

Sunday, July 02, 2006

Lizard

Saturday, July 01, 2006

Trocaram-me de mãe no hospital. Como nos filmes, sabes. Mandaram embora, de mãos a abanar, a que entrara na certeza de sair com um recém-nascido nos braços, e entregaram-me à que chegara naquela tarde de chuva à procura de remédio contra as dores de cabeça e contra o medo de enlouquecer. Juro-te: durante muitos anos foi isto que eu pensei. Não tinha outra explicação. Não podia ter. Só assim se entendia que ela nunca dissesse o meu nome, que repetisse tantas vezes que estava velha de mais para ser mãe fosse de quem fosse, e que os meus passos, por mais leves, lhe provocassem «crises», como dizia o meu pai. Durante muito tempo também pensei que «crises» era o termo científico para designar as dores de cabeça ou a loucura. - Um dia destes endoideço – repetia ela. - São as tuas crises – murmurava o pai. Só assim se entendia que eu passasse tantas horas debruçada sobre a mesa de mármore da cozinha, ouvindo as cantigas e as histórias de Leonor, e o bichanar das espanholas na Sala de Visitas, sem que ela se lembrasse de vir ter comigo, olhar uma vez que fosse para os meus cadernos, ralhar-me por ter letra feia ou elogiar-me, se a achasse bonita. In Os Olhos de Ana Marta, Alice Vieira
"Quando a minha irmã nasceu, o meu desapontamento foi tão evidente que a minha mãe, abafada entre lençóis e cobertores da cama do hospital, me disse: - Ela vai crescer num instante! Assim como se me pedisse desculpa nem ela saberia ao certo de quê. Num instante. Num instante? Num instante descia eu a rua para ir a casa da Rita trocar cromos («não te compro mais enquanto não colares na caderneta todos os que tens!», dizia a mãe tantas vezes), ou para lhe emprestar um livro, ou ela a mim. Num instante bebia eu o leite nos dias em que me atrasava, para apanhar a carrinha da escola, a voz de Margarida nos meus ouvidos: «olhe que por sua causa vamos chegar tarde!» Num instante ficava em água o gelo, em tempo de calor – e o que eu e a Rita tínhamos rido no dia em que a Chica estava cheio de medo que os cubos de gelo entupissem a pia... Não, a minha irmã não ia crescer num instante. E eu não entendia por que razão a minha mãe tinha dito aquilo, se ela sabia, tão bem como eu, que não era verdade" In Rosa, minha irmã Rosa, Alice Vieira