Monday, December 31, 2007

2008

A um passo de 2008, vamos a previsões, não meteorológicas, nem astronómicas, mas astrológicas. Segundo a Maya, na Pública (que, esta semana, peca por alguns erros ortográficos; é o preço que se paga por dar a palavra ao leitor, sem depois haver um verificador ortográfico, automático ou não), ultrapassarei todos os obstáculos. No amor, mesmo que não faça nada, tudo será mais rápido (desde que não ultrapasse a velocidade...). No trabalho, vou dar nas vistas, quer queira, quer não (logo eu, que gosto tanto de passar despercebida). No dinheiro, finalmente vou receber os frutos dos profundos estudos que fiz à conjuntura dos mercados (eu sempre tive olho para a Bolsa). Na saúde, terei de evitar os excessos (que é o que mais faço). Pelos vistos, não precisarei de me preocupar, pois tenho já alguém a controlar tudo por mim. O que não vai acontecer, garantidamente, é chegar ao final de 2008 e dizer que um dos momentos mais felizes do ano foi ter conseguido "uma fotografia ao lado do presidente Pinto da Costa" (uma jovem inconsciente, ainda na Pública).

Sunday, December 30, 2007

The Killers

In the shadow play acting out your own death, knowing no more As the assassins all grouped in four lines, dancing on the floor And with cold steel, odour on their bodies made a move to connect I could only stare in disbelief as the crowds all left

Friday, December 28, 2007

O Enigma da Carótida

À mesa falava-se de tudo. Naquele dia, por algum motivo que esquecera, começaram a falar de veias e artérias. Inevitavelmente, a jugular, a aorta e a carótida.... e surge então um problema. Esta tornou-se repentinamente um enigma, ou melhor, a sua localização. Seria no pescoço? No esterno? Na cabeça - talvez na fronte... ao fim de alguns minutos, o questionamento tornara-se incómodo e a resposta surgia como um imperativo. Por isso, quando o empregado se aproximou gentilmente da mesa a fim de tomar nota do manjar, um dos comensais, não se conteve e puxou-o para o diálogo interpelando-o: "sabe onde é que fica a carótida?". O funcionário, olhou em volta, baixou a cabeça e lamentou-se: "desculpe, também não sou de cá; o melhor será perguntar a outra pessoa".

Tuesday, December 25, 2007

Foto minha

Labirinto

Sozinha caminhei no labirinto
Aproximei meu rosto do silêncio e da treva
Para buscar a luz dum dia limpo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Friday, December 21, 2007

Isto é o Natal

Lisboa. Uma rua. Hoje. De manhã. E três pedacinhos de vento. Ouvi a velhota dizer: Ó cachecol, vem para aqui. Não é para andares para a frente. Sorri. - Foi só para fazer sorrir a menina que eu disse isto. - Obrigada. - respondi.

Du silence

Avec Blur

Wednesday, December 19, 2007

Natal Inato

«Amor omnia vincit» I Vou cantar, agora, o hino. D’Alma pura, aberta e nua. Cantarás o meu Menino? Cantarás loas à Lua? É Dezembro, há mal e maus. É Natal, e é Maria. Mas a terra, canho e caos. T’levisão, pornografia. II Sou parteiro, e há o escopro. Trabalhemos, insuflemos. Se há sangue, e há o Sopro, Suspiremos, meditemos. Pois há muito, havia um Lírio. Leonardo. Ou era a Luz? Foi a Cruz, e o martírio: Era a Ceia de Jesus. Lisboa, 15/06/2006 PAULO JORGE BRITO E ABREU Para ver, ouvir e estar com o poeta, sugiro uma passagem pelos Meninos da Avó, amanhã, 20 de Dezembro, em Sintra.

Sunday, December 16, 2007

Este Natal

- Este Natal anda muito perigoso - concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente? Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia. - De qualquer maneira, este Natal é fogo - voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo. De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre". Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante. O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vendedor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida. O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau. Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece - informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor. E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho. Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia. Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou - idéia de João Brandão, o sempre inventivo - comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus. (14-12-1966) Carlos Drummond de Andrade

Thursday, December 13, 2007

In the mood for beauty

Todas as memórias são rastos de lágrimas.

Monday, December 10, 2007

Livro das Respostas

Fotografia de Kimiko Yoshida

"O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objectivo. O menos perigoso é, na meditação, «ver, o que prescinde de palavras de pensamento. Sei que existe agora um microscópio electrónico que apresenta a imagem de um objecto cento e sessenta mil vezes maior do que o seu tamanho natural - mas não chamarei de alucinatória a visão que se tem desse microscópio, mesmo que não se reconheça mais o pequeno objecto que ele monstruosamente engrandecera.
Se eu me enganei na minha meditação visual?
Absolutamente provável. Mas também nas minhas visões puramente ópticas, de uma cadeira ou de um jarro, sou vítima de erro:(...). O erro é um dos meus modos fatais de trabalho."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H.