Saturday, August 25, 2007

De quem @s amar



VINTE MIL. Segundo as ONG's portuguesas (informação divulgada numa entrevista ao JN) este é o número de crianças institucionalizadas. Que é como quem diz, em instituições de acolhimento temporário - sempre temporário, lá está, que o que se quer é devolver as crianças às famílias (biológicas, de preferência, dizem os nossos juízes e juízas). Claro que, para centenas destas crianças, aquilo que era um afastamento temporário em carácter de emergência transforma-se numa adopção não oficial por parte da Instituição de acolhimento.
Notar, por favor, que das 20 mil crianças, nem todas estão em condições de adoptabilidade. Aliás, segundo fontes oficiais, em 2003, o total das crianças em situação de adoptabilidade cingia-se a 703. Importa mencionar que basta que o pai ou mãe biológicos visitem a criança uma vez por ano para esta não ser considerada "adoptável". Uma vez por ano... a consanguinidade é mesmo garantia de amor fraterno, não concordam? Adiante.
No mesmo ano, 4 crianças foram confiadas a um(a) candidat@ singular.

O argumento de que a adopção por parte de homossexuais não deve ser permitida por falta da referência da norma (seja falta de um modelo masculino ou feminino) é, portanto, fruto de uma imensa distracção, uma vez que a actual lei já permite a adopção por parte de SINGULARES. Calha bem que ainda, sublinho AINDA, não ouvi qualquer entrave à adopção por parte de agregados unipessoais. Onde encontra a criança (num agregado unipessoal) a norma da santíssima trindade tão apregoada pel@s oposicionistas à adopção por casais homossexuais? Bom, talvez com @s prim@s, por exemplo, na escola, nos livros escolares, na televisão, entre @s colegas, amig@s, everywhere.
Aliás, por todo o lado também, as crianças que crescem no seio das famílias encaixadas na dita norma recebem a informação de que a norma, aquela norma que dita que família que é família é a que tem mãe, pai e criança(s) tem nuances. Afinal há outros modelos de família. A criança descobre que alguns dos seus amiguinh@s vivem com @s avós, ou só com a avó e com a mãe (credo, coitada desta criança que vai crescer sem qualquer referência masculina). A criança descobre também que tem amig@s cujos pais desapareceram - nem tão pouco telefonam aos filhos quando el@s fazem anos. E amiguinh@s que são criados por vizinhas, por tias e madrinhas, tantas vezes sem companheiros. E, claro, a criança descobre rapidamente que tem colegas cujos pais e mães biológic@s se estão nas tintas para a hora a que eles se deitam, jantam ou se vão à escola, mas isto é matéria para outro post. E isto são males menores, pois o maior, o maior de todos os males, segundo ouço dizer, e que justifica tão arreigada oposição à adopção de crianças por casais dos mesmo sexo, é o terror do contágio da homossexualidade.

@s oposicionistas temem que as crianças se tornem bichonas de trazer por casa - sei lá, vai-se a ver e, horror dos horrores, ainda acabam de avental numa cozinha aos beijinhos com os amigos.

A pornografia estampada nos jornais da especialidade ostentada nos quiosques que vendem doces à porta das escolas não choca @s que se opõem à adopção por casais do mesmo sexo. Nem os inúmeros casos de violência doméstica - por enquanto, desculpem lá, maioritariamente em casais heterossexuais. Estes modelos - consolidados numa sociedade que durante anos desculpou e continua a tolerar a violência, não choca os seus valores. Porque o que é realmente indecente são dois seres humanos do mesmo sexo amarem uma criança como seu filho. Que lhe proporcionem estabilidade emocional, educação e um modelo de família baseado na igualdade e tolerância??? Ah! Isso é que é verdadeiramente intolerável!

Suponho também que os números de famílias monoparentais que existiram - e existem - no nosso país devam ser ignorados. Ou ainda que as famílias constituídas por filh@ e mãe e tia/avó não constituam quaisquer perigos para as crianças, uma vez que, apesar de não haver qualquer modelo masculino dentro de portas, os laços de sangue devem "salvaguardar" a criança do mal maior que é a homossexualidade. Continuam também por explicar os (inúmeros) casos de homossexuais que cresceram no seio de famílias heterossexuais.... (ah, é verdade, são doentes; a homossexualidade é uma doença, contra-natura).

E a missão é salvar estas crianças, coitadas, que podem cair nas mãos malvadas desta gente que agora quer tudo, querem os mesmos direitos, casar e até adoptar! Onde é que já se viu? Nada disso! Que paguem os impostos ainda é como o outro, que andem nos mesmos transportes públicos, pronto, enfim... mas far-se-á tudo para se manter a norma - a tal que toda a gente ouve falar e que tantas nuances REAIS tem.
E claro, que melhor local para se apreender a norma da família da santíssima trindade que não numa das centenas de instituições de acolhimento? É que, como tod@s sabemos, esse é o lar - temporário, temporário - das crianças adoptáveis. E esse é um lar feito com todo o amor de muitas mães e de muitos pais, certooooo?????

Ao desenrolar (um pouco) o novelo dos argumentos d@s oposicionistas da adopção por casais homossexuais encontram-se pedaços de um egoísmo feito de ignorância e de preconceito.
Ignoram (por esquecimento e não por má fé, com toda a certeza) que o modelo de família - o que, no momento, é considerado norma: mãe, pai e filh@(s)- não o é para as milhares de crianças institucionalizadas. E que nunca o foi para as crianças que passaram toda a sua vida de menores em instituições de acolhimento.

P.S: Sim, também há mulheres que abandonam os filhos, que os deixam ao cuidado de avós e tias e desaparecem, (e que até @s matam) mas a dura verdade dos números é que as famílias monoparentais são maioritariamente (em grande, grande maioria) constituída por mães e filh@s, daí que o texto refira sobretudo exemplos de famílias onde não há a figura masculina do pai.

Picture by Joel Peter Witkin (um freak que fotografa freaks e, que eu saiba, é heterossexual)

1 comment:

nefertiti said...

leitura obrigatória. excelente. já o tenho como referência.