Saturday, April 07, 2007

Jogar às Escondidas

Por vezes, usamos a mente, não para descobrir os factos, mas sim para os esconder. Usamos uma parte da mente como um véu para evitar que uma segunda parte da mente se aperceba do que se passa na primeira. Este véu não é forçosamente intencional - nem sempre escondemos de propósito - mas intencional ou não, o véu acaba sempre por esconder. Umas das coisas que o véu esconde mais eficazmente é o corpo, o nosso corpo propriamente dito, tudo o que lá se encontra dentro, as entranhas. Tal como um véu que cobre o corpo para manter o pudor, mas não o encobre completamente, o véu de que falo esconde da mente os estados interiores do corpo, aqueles que constituem o fluxo da vida enquanto esta vagueia na jornada de cada dia. A suposta falta de clareza, a suposta dificuldade de definição e o suposto carácter impreciso das emoções e dos sentimentos são provavelmente um sintoma deste facto, um indício de como encobrimos a representação dos nossos corpos e de como as imagens mentais que não se relacionam com o corpo mascaram a realidade do corpo. Se assim não fosse, saberíamos facilmente que as emoções e os sentimentos são tangivelmente acerca do corpo. Por vezes, usamos a mente para esconder uma parte do nosso ser de uma outra parte desse mesmo ser. Poderia descrever este acto de esconder o corpo como uma manobra de diversão, mas teria de acrescentar que se trata de uma manobra de diversão bem adaptativa. Na maior parte das circunstâncias, em vez de concentrarmos esses recursos nas imagens que descrevem os problemas do mundo exterior, ou nas premissas desses problemas, ou ainda nas opções para a sua solução e nas consequências possíveis das diversas soluções. No entanto, pagamos caro por esta distorção de perspectiva em relação ao que se encontra acessível nas nossas mentes. A distorção impede-nos de apreciar directamente a possível origem e natureza daquilo a que chamo Si. Quando levantamos o véu, e à escala de compreensão que a mente humana permite, creio que conseguimos sentir a origem do Si na representação da vida. In O Sentimento de Si: o Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência, António Damásio, 1999.

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