Saturday, December 30, 2006

"Tenho o gosto do Segredo"

«Nem sempre se escreve com o desejo de se ser compreendido; há, pelo contrário, um desejo paradoxal de o não sermos; não é simples, mas há como que um "espero que, deste texto, nem todos entendam tudo"; com efeito, se a transparência da inteligbilidade estivesse garantida, destruiria o texto, mostraria que não tem porvir, que não transborda o presente, que se consuma imediatamente; portanto, uma certa zona de desconhecimento e de incompreensão é também uma reserva e uma possibilidade excessiva - uma possibilidade para o excesso de se ter um futuro e de, por conseguinte, se gerarem novos contextos.»
Jacques Derrida, O Gosto do Segredo

7 comments:

nefertiti said...

eu sei guardar segredos. : ))

Rosa said...

Faz pensar e isso é bom.
Concordo de alguma forma com Derrida. Nem sempre, diria, se escreve com o desejo de se ser compreendido por todos. Por todos. Uma compreensão imediata, traduziria a tal imediatez consumista do escrito.
O meu lado egoista gostaria de ser capaz de escrever somente para ser compreendido por um. Apenas um.

Rosa said...

Reli este post, a partir do link no post de WOB.
Nefertiti, tens a certeza de que sabes guardar segredos?
pergunto por curiosidade.

salomé said...

A escrita que guarda segredos - ou que o procura - é, não raras vezes, denúncia do que procura silenciar. Como um presente de que se quer (guardar) sigilo, esquecendo que o embrulho (embora não transparecendo o que está dentro) não deixa de dizer do que se trata.

Neste caso, não fosse astúcia um termo que, associado ao feminino, transporta representações lodosas, não hesitaria em usá-lo. Porque neste novo contexto (gerado pelo dito, pelo por dizer e pelo murmurado) é isso que lemos - pelo uso do meta-segredo.

Woman Once a Bird said...

Ultimamente, desfolheio compulsivamente Irigaray e aqui a deixo a jeito para quem a quiser apanhar:
"Je te donne du silence(...). Ce silence n'est pas hostile ni restrictif. Il est disponibilité que rien ni personne n'occupe, ne préoccupe. (...). Ce silence est condition d'un possible respect de moi et de l'autre dans leur limites."

salomé (a horas mais decentes?) said...

Nem restritivo ou hostil é o avesso do silêncio; é também - e precisamente (sábia Irigaray) - sinal de respeito. Próprio. E pelos outros. Nos seus limites.

nefertiti said...

ena, isto tudo a passar ao lado! ainda bem que sou uma nostálgica.

Rosa, realmente segredos não é comigo. A pressão foi tanta que eu tive mesmo que revelar o TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA. Estou mesmo a pensar em revelar outros. Vou escrever um livro e chamar-se-á: "Eu, Nefertiti" Bombástico.

Salomé, vejo que já não precisa de tradução no francês!! progressos.