Sunday, December 17, 2006

Bloqueios Literários

O convite para confessar alguns bloqueios literários veio da Horvallis. Relembrar livros cuja leitura recusamos não é uma tarefa simples. Desconfio sempre por não me surgir uma lista infindável, pois sou uma convicta de que não se deve forçar a leitura. Apetece lemos, não apetece não temos de ler, ponto final. Qual é a dúvida?
A leitura supõe-se sempre um acto de prazer. (Sim, sim, claro que há as de obrigação, mas a essas chamo estudos. Isto é, a tudo o que se lê por obrigação e do qual não se tire prazer, chamo "estudo" - não, não tenho qualquer trauma com estudos, pelo contrário). Digo "está a estudar" e não "está a ler", caso a leitura tenha algum carácter obrigatório e a este, se junte a ausência de qualquer gratificação na sua execução. E porque associo a leitura ao prazer, corroboro integralmente os Direitos Inalienáveis do Leitor (Daniel Pennac), dos quais destaco:
1. O direito de NÃO ler 5. O direito de ler Não importa o Quê. Ora, sou pessoa de invocar com alguma regularidade o primeiro direito. Por isso mesmo (volto a dizer) desaconselho severamente as leituras forçadas. A verdade é que já forcei algumas leituras. Sei porquê: é tão estranho ouvir algumas pessoas que gostamos e prezamos tanto, com as quais temos tanto em comum, a elogiarem tanto a obra (ou @ autor(a)), que coloco na leitura um esforço que, habitualmente, nego. Refiro-me a uma insistência que, por hábito, não coloco numa obra. Uma das leituras forçadas (sem qualquer fruto, já que nunca consegui passar das primeiras páginas) foi com dois livros do:
Lobo Antunes. O que, da família, abandonou a psiquiatria para se dedicar à escrita. O António. Tentei duas vezes. É bem possível que tenha começado pelas obras erradas - mas há mesmo obras erradas? aquela coisa dos livros difíceis... ou mais complexos e densos? Bom, adiante. Iniciei a minha tentativa com a Ordem Natural das Coisas... pode ter sido a altura errada... já lá vai o ano de 1995 (acho). Anos mais tarde (já tínhamos entrado no novo século e lanço-me no Manual dos Inquisidores... (idem). Cheguei à conclusão que a escrita de Lobo Antunes me afastava tanto dos conteúdos que nunca mais tentei ler nada dele. Ofereci os livros a quem, por certo, desfrutou melhor da sua leitura que eu da sua não leitura. Jane Austen. Eu sei que (à semelhança do anterior) muita gente a elogia. Que todos dizem coisas que oscilam entre o mais ou menos bem e o óptimo...no caso de Austen não me forcei a lê-lo. Comprei um livro dela no início da adolescência. O título entusiasmou-me: Orgulho e Preconceito (imaginei logo uma luta inter-etnica). O conteúdo desiludiu-me tanto que o ofereci e nunca mais tentei ler Jane Austen. Passando dos bloqueios autorais para os livrescos (e com grande pena minha, desde já admito...): a estória do menino que vivia em Chora-que-logo-bebes. Só o nome da terra tem tudo para ser algo cativante, mas não consegui. Foram diversas tentativas (creio que a última cheguei ao segundo capítulo) entre as viagens nas carruagens do Metro. Admito que guardo em mim uma grande esperança de conseguir ler esta obra do José Gomes Ferreira. Ainda não descobri quando. Mas acho impossível uma obra que tem um João Sem Medo, habitante de Chora-que-logo-bebes, onde há um muro que ostenta: "É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir" não ser um livro cuja leitura seja por demais gratificante. Por acaso, o deus das pequenas coisas (tal como a Horvallis) também foi outro que acabei por não ler. Tive-o cá em casa ainda uns meses. Não me recordo bem, porque acabei por não passar das primeiras páginas. A ilusão do fim ou a greve dos acontecimentos do Baudrillard. Recordo-me de o ter adquirido há mais de dois anos, via Internet. Estava muito entusiasmada. O que pudera ler da sinopse deixara-me muito curiosa: "por todo o lado há muita gente a tentar apagar o séc. XX. Há muita gente a tentar apagar os sinais da guerra fria, talvez mesmo todos os sinais de todas as revoluções políticas ou ideológicas". Acabara de ler Os Assassinos da Memória, do Pierre Vidal-Naquet, o qual me tinha agradado bastante e, estava muito interessada no revisionismo histórico e no negacionismo. Li 36 páginas. Ainda sublinhei algumas frases que achei interessantes e quando (actualmente) folheio o livro continua a parecer-me ter reflexões muito ricas.. contudo... achei o início excessivamente abstracto, com referências imensamente rebuscadas e coloquei-o na prateleira com intenção de não o voltar a buscar.
Entre outras coisas, Pennac fala também do direito de ler a última página de um livro no início da leitura da obra, bem como de saltar páginas. Foi precisamente por reclamar estes direitos que li Ora Esguardae, da Olga Gonçalves. O cruzamento de analepses e prolepses estava a deixar-me agoniada e estava decidida a colocar o livro de parte para nunca mais lhe tocar. Foi precisamente o facto de saltar (muitas) páginas - onde encontrei excertos que me interessaram - que me levaram a recuar e continuar a leitura - sempre com o objectivo de chegar à parte que me tinha realmente seduzido. Quais foram os vossos bloqueios literários? Everything: sim, também é para ti!

9 comments:

Fidélio said...

Tantos mas tantos, que a lista dificilmente chegaria ao fim. No entanto existe UM que aqui irei partilhar com quem me quiser ler.

Penso que nunca na minha vida, terei descarregado tanta raiva, tanto ódio, tanta maldicência contra um livro como foi a caso da Mme Bovary (do Flaubert). Para quem teve a sorte de escapar a este romance, deixo aqui um pequeno link indicativo: http://pt.wikipedia.org/wiki/Madame_Bovary .

Tratou-se no meu caso de um romance "de obrigação", lido num contexto de estudo (velhos tempos do Liceu Françês), mas ainda hoje, cada vez que posso, elaboro um "Manifesto anti-Bovary". Não pelo tema em si, que é muito interessante, mas pelo estilo pesado do autor. Deste modo, desejei a morte da pobre mulher logo no início do livro, pus-me a sonhar nas piores formas de ela morrer, dei-me ao luxo de redigir no próprio livro sugestões de como alguém torturar a personagem e mesmo... os "dez mandamentos de quem tiver o azar de encontrar este livro na rua". Mas o summum bonum terá sido uma dissertação em que ignorei o tema proposto, para insultar gratuitamente a pobre Madame Bovary em troca de um valente zero. Enfim. Velhos tempos de uma adolescência longínqua. Desculpem-me o desabafo, provavelmente doces reminiscências de um trauma do passado.

Isto para dizer, talvez no seguimento desta interessante reflexão da Dirim, que "bloqueios literários" todos temos. Mas penso que existem idades, dias e mesmo fases da nossa vida para ler determinado livro ou autor. Por vezes é uma questão de experiência de vida e maturidade. Outras vezes tudo não passa de uma questão de "gosto semântico". Mas na maior parte das vezes, penso que tudo não passa de mera disposição e humor. Há dias para tudo. Dias para Saramago, dias para Lobo Antunes, dias para a Bessa Luis, dias para os clássicos, e segundos na retrete para a Margarida Rebelo Pinto...

everything in its right place said...

:o)

you'll get my answer!

Dirim said...

Everything, fico à espera :)

Fidélio: li a Bovary mais tarde que tu - já tinha passado o liceu. Peguei no livro em português e li-o sem dificuldade. Acho que vou pegar no teu curioso comentário para tentar elencar os ódios de estimação literários :):) tu já começaste :)

Tamodachi said...

Eu ainda não encontrei assim um "bloqueio literário" que me faça odiar de morte o livro, ou que me recuse a ler seja o que for do autor. Devo concordar com o Fidélio quando diz que existem humores, idades, fases na vida que proporcionam esses "bloqueios" ou "desbloqueios".
"Bloqueados" de momento tenho muitos livros, um deles é o já citado "0 Deus das pequenas coisas", que foi um livro que quis tanto ler, e que ao fim de duas páginas já não conseguia avançar mais. Espero voltar a ele claro, não sei é quando, mas espero que seja nesta vida.
Também tenho "bloqueado" "As ligações perigosas" do Choderlos de Laclos, porque está numa parte lamechas que eu não consigo superar, e passar por cima faz-me impressão.
Outro que tenho "bloqueado" é a "Manhã submersa" do Vergilio Ferreira, não por achar o livro maçador ou dificil de ler, mas por ficar com um nó na garganta, e até mesmo chorar, tal é a familiaridade dos sentimentos descritos.
Outro que tive muito tempo "bloqueado" de nem sequer o abrir, até um dia, por necessidade, lhe pegar (estava a apanhar uma seca monumental num sitio, e lá estava o livro para me salvar), foi "Uma conspiração de estúpidos". Escusado será dizer que lhe peguei e não o larguei...
De resto, tudo se lê, umas vezes mais depressa, outras mais devagar. O que me acontece muitas vezes, é começar a ler tanta coisa, que os livros se "bloqueiam" uns aos outros, o que é péssimo. Por isso não leiam mais que dois ou três livros ao mesmo tempo, acreditem...
Os únicos livros que tenho mesmo completamente bloqueados, embora isso não signifique que não os leia muito mais tarde, são os livros da moda. Isso é que para mim está fora de questão! Um exemplo disso é "O código DaVinci", o "Equador", e livros do género.
Estar num sítio qualquer a ler e olhar para o lado e ter toda a gente (pelo menos a pouca população que lê) a ler o mesmo livro porque está na berra, desculpem mas não me passa no estreito!

Dirim said...

ai, ai, o mau feitio outra vez!!!! o deus das pequenas coisas que tive cá em casa era o teu ;-)
Ligações Perigosas também li (após ver o filme) já há uns anos. Não me recordo em particular de partes lamechas, admito. Li-o rapidamente, até porque a sua forma epistolar facilita a leitura. Quanto aos teus ódios de estimação: tens bom remédio: ou só os lês no aconchego do lar ou colocas uma capa para os camuflar ;-)
Ler livros da moda não tem mal algum; aliás, se vires as coisas pelo lado positivo, facilmente concluis que é óptimo trocar impressões acerca da mesma obra - por isso... quant@s mais leitor@s... melhor ;-)

No que respeita aos meus bloqueios.. acredita que não tenciono tentar voltar ler a Austen ou o Lobo Antunes - a não ser por alguma 'obrigação' e aí já não será ler.. mas sim... estudar ;-)

Tamodachi said...

Sim, de facto aos livros da moda basta camuflá-los, mas irrita-me na mesma.
E como trocar impressões posso fazê-lo sempre, quer leia hoje ou amanhã, a motivação para os ler não aumenta... às vezes só a faz diminuir ainda mais...

horvallis said...

Obrigada pela resposta Dirim ! ótimo post e ótima reflexão !
Nunca tinha feito a distinção entre leitura prazer e leitura estudo, provavelmente porque estudar é um dos meus maiores prazeres na vida, e também porque, muitas vezes, as leituras forçadas se tornaram leituras prazer e alguns autores com os quais tive muitas dificuldades no começo viraram os meus preferidos.
Há nessas leituras difíceis um lado quase iniciático
Abraços !

Anonymous said...

"Não Entres tão Depressa Nessa Noite Escura" de António Lobo Antunes, nunca mais lhe pego...
Neste momento na moda só se for o "Eu Carolina" toda a gente fala, mas sinceramente, será que alguém o lê???

Dirim said...

Há muita gente a dizer que sim, que o está a ler ou que já o leu: Marcelo Rebelo de Sousa, o Procurador Geral da República e uns quantos outros tipos do futebol. Se dizem ou não a verdade? Não faço a menor ideia, mas que alguém o compra, lá isso, compra.