Saturday, May 12, 2007

Consciência e eficácia

De repente, os dias modificam-se radicalmente. Da existência pacífica que pratica há alguns anos passa ao sobressalto. Desde o dia em que lhe foi lançado um "É uma mulher extremamente bonita", que tudo se alterou. Não dorme nem descansa totalmente. Tem receio do toque, da surpresa, de espaços abertos que a exponham. O homem, de pés e mãos enormes, acha que a toma na palma da mão. Primeiro, desfaz-se em elogios. Ela não gosta. Depois, cerca-a, sitia-a. Julga que ela é a muralha da Terra que lhe é permitida. Ela escapule-se por entre os dedos gordos dele. Primeiro racionalmente e não resulta. A alternativa é erguer-lhe um muro de silêncio. Sente vontade de seguir os conselhos que lhe dão: "Diz que és comprometida" - Que é isso de ser com-prometida? "Alega que o teu namorado não gosta da brincadeira." - ELE não gosta? Divide-se entre o desespero daquele ser que insiste em colar-se-lhe e a consciência de que a sua recusa deve ser suficiente, de que não precisa ser validada por um outrém. Tem que bastar a palavra dela. Tem que bastar a liberdade dela. Não é de ninguém. Muito menos de "quem a apanhar".

9 comments:

Ceridwen said...

Levantas uma questão interessante. Sempre achei muito curiosa a tendência que, certos machos têm para pedir desculpas uns aos outros quando sentem que a mulher que estavam a cobiçar está acompanhada de um outro homem. A cena é quase ridícula. A mulher diz que não quer dançar, não está interessada na conversa, não quer tomar nenhum copo com ele, obrigada. O homem insiste. Mas quando o outro, com quem ela está com-prometida aparece, o primeiro indivíduo é capaz de se desfazer em desculpas - não ao Ser Humano a quem estava a incomodar, mas sim ao outro Ser Humano que ele vê como dono da mulher que ele ainda há pouco aborrecia. Não se desculpa perante a atitude de desagradável insistência que estava a ter perante ela, mas por ter disputado aquela que ele entende ser território de outro (esse sim, a quem reconhece igualdade). A igualdade formal está a anos-luz da igualdade real. E já agora, já pensaste como é irónico como é que o verbo domesticar é utilizado com o sentido de tornar submisso? Quem é que, primordialmente desempenha as tarefas domésticas? A quem ouvimos dizer "é doméstica" para designar a profissão de alguém que não trabalha fora de casa?

nefertiti said...

eu sei que realmente é estúpido, mas quando eu, mulher, tomo conhecimento que alguém por quem eu me interessei é comprometido ou tem namorada ou esposa, o meu interesse fica aniquilado, sem qualquer se. julgo que deve funcionar com mtas pessoas, é uma norma social bastante enraízada na sociedade ocidental ou pelo menos deveria estar.

cuscavel said...

Que podem funcionar, esses argumentos, podem. Mas parece-me que o verdadeiro "sobressalto" é precisamente esse funcionar. Essa tal validação externa. Tem de bastar, sim, a liberdade dela. Para que a norma perca as tais raízes, que fala nefertiti, e dê os frutos que pretendes.

nefertiti said...

um não deveria bastar. mas aqui não é o facto de ser mulher, é isso que eu quero evidenciar. a obsessão atinge o feminino e o masculino.

Woman Once a Bird said...

Mas aí é que está. A ser obsessão, não seria o facto de alguém ter um relacionamento que travaria um obsessivo. Aliás, tal seria irrelevante. A questão é que na maior parte dos casos, só trava as criaturas referidas por Ceridwen. E as que refiro no post.

nefertiti said...

o mais interessante é quando uma mulher vem falar ou pedir satisfações à "rival" porque o macho é dela! olha que não é raro!!
umas verdadeiras estupidazinhas, muito inhas! dava outro post!

Woman Once a Bird said...

Mas repara, o macho não pode ser perturbado. Ele, coitadinho, foi vítima da outra. Voltamos ao mesmo.

nefertiti said...

mas a mulher tb cultiva a atitude! elas zangam-se com a outra e não com o estúpido do macho-man.entre "eles" e "muitas elas" não consigo ver diferenças!

Woman Once a Bird said...

Nunca afirmei que a mentalidade chauvinista é exclusiva dos elementos do sexo masculino. Mas não deixa de ser chauvinismo porque pronunciado por uns lábios femininos.