Thursday, November 23, 2006

The Little Mermaid ou como uma sereia lixou a sua vida e (até aposto) a de toda a sua família!

Já há uns tempos que pensava sobre esta história. Desde que ouvi a Dirim a queixar-se da violência dos contos (supostamente) infantis do Andersen (e igualmente dos seus pares, que não estou aqui para cascar no pobre do Andersen, que sei não ter tido vida fácil). Ele é a rapariguita dos red shoes que para se ver livre deles tem que amputar - sim, leram bem - os pés (poupo-vos os detalhes). Eles são os irmãos que mentem e são maus como as cobras; mas, a pérola das pérolas - na minha modesta opinião é Ariel, a pequena sereia.

Coitada. Não é só por ter cedido tudo o que tinha em prol de um homem que se casa com outra. Não, isso é o menos. O pior é mesmo a forma como a feiticeira (com quem ela negoceia - é o que dá a quem se mete com feiticeiras) lhe tira a voz... já leram o original? Eu já. Bom, quero dizer, não foi bem o original que esse é em dinamarquês e eu, bom, é como quem diz, dinamarquês é mais o campo da Dirim e não tanto o meu, de modo que li na língua do Shakespeare.

Posso desde já dizer que a Ariel é uma péssima negociante. Sacrifica tudo o que tem por nada. Afinal de contas, ela troca a vida que tinha por duas pernas (espero que ela tenha negociado aquela coisa da celulite e das varizes - na volta foi por isso que o princípe casou com outra). E não é por nada, mas para quem é sereia, não ter uma cauda deve ser um desconforto incrível. Isto para não falar do pormenor de a família e amigos passarem a viver num planeta totalmente inacessível.

Mas a violência do conto não reside no facto de Ariel não perceber nada de negócios e não compreender que não se deve abdicar da vida que se tem por algo que, já estava mais do que visto, não ia resultar. O princípe em questão é emocionalmente instável e um ingrato que demora imenso tempo a reconhecer na sereia a tipa que outrora lhe salvou a vida. Mas, claro, a Ariel demora algum tempo a perceber esses "defeitos" (ou se quiserem características) no indivíduo. A questão é que não contente em se ver livre da cauda, apesar de isso determinar a ruptura com a sua vida anterior, Ariel cede o que considera ser a sua melhor característica: a voz (e sabem como é que a feiticeira - nascida e criada na cabeça do Andersen -, lhe tira a voz?). Ora leiam:

"Stick out your little tongue so I can cut it off in payment”.

I beg your pardon??? Stick out your little tongue so I can cut it off???? Só de pensar na hemorragia fico agoniada.

Para piorar as coisas, só mesmo a resposta que a feiticeira dá a Ariel quando esta lhe pergunta como é que vai conquistar o princípe sem a sua voz.... a esta (pertinente) questão (note-se que estou em crer que apesar de péssima negociante, a Ariel até era capaz de dizer algumas coisas de jeito); dizia eu que, a esta questão, a sagaz feiticeira (profundamente conhecedora das características dos mortais) responde:

“With your lovely figure!"

Ainda estou a recuperar desta. Juro. Como é que é possível que até no underwold esta gente saiba estas coisas????? E a senhora continua a explicar-lhe (qual voz, qual quê rapariga! Achas que o princípe está interessado no que possas ter para dizer?):

"your grace of movement, and your sparkling eyes; with them you can enchant a mortal heart, all right!"

E não pensem que a feiticeira é má como as cobras. não senhora, não é. Porque ela negoceia de uma forma muito honesta, mais: até avisa Ariel que aquela negociata não prima pela inteligência:

“I know what you want,” said the sea witch. "It is very stupid of you to do it. Nonetheless, you shall have your way, for it will bring you misfortune, my lovely princess! You want to get rid of your fishtail, and have two stumps to walk instead, just like mortals, so the young prince can fall in love with you, and you can win him and an immortal soul.”

Ela não foi clara! Podem pensar. Engano. Foi muito objectiva. Porque além de lhe dizer que o seu discernimento já tinha tido melhores dias, até lhe puxa os cordelinhos da memória para que ela se lembre do que irá perder:

“But remember,” said the witch; “once you have been a mortal shape, you can never become a mermaid again. You can never sink down through the water to your sisters and to your father's castle."

Mais... numa manifestação clara de que era uma excelente profissional, até vai mais longe e lhe lembra que ela está num jogo perigoso, que lhe pode custar a vida, pois não bastariam as pernitas para ter a alma imortal, era preciso que o volúvel do princípe se casasse com ela:

"And if you do not win the love of the prince, so that for your sake he forgets his father and mother and never puts you out of his thoughts and lets the priest place your hand in his so you become man and wife, you will not win an immortal soul. The first morning after he is married to another, your heart will break, and you will turn into foam upon the water.”

Mas... como já sabemos, a Ariel era uma rapariga de ideias fixas. Muito fixas, por sinal. De modo que, apesar de receber estes avisos todos por parte da feiticeira, continua a insistir.

“This I want” said the little mermaid and turned deathly pale..

E pronto. O resto já sabem. O princípe casou mesmo com uma princesa (e não com uma ex-sereia com duas pernas). Posto isto, não restaria outra saída para a nossa pequena heroína que não transformar-se em espuma do mar - como lhe havia sido dito pela feiticeira. Mas eis que, no meio da desgraça, surge uma oportunidade vinda directamente das irmãs sereia (por sinal, um pouco mais racionais que Ariel). O acordo era este: espetas esta faca (mais uma vez a feiticeira em acção...) no coração do princípe e volta-te a crescer uma cauda (tipo: esqueces este episódio desagradável, que a gente é que é a tua família e perdoa-te esta pequena paragem cerebral). E adivinhem lá o que fez a ex-sereia? Ariel, de tão boa rapariga que era (como convém nos contos de fadas ou de feiticeiras ou seja lá o que for), nem tão pouco consegue espetar a faca no homem, - porque... enfim... o amor, como sabem, pode ter estes efeitos secundários nas pessoas, que é como quem diz, esquecerem-se de que as suas vidas também são importantes. Prefere transformar-se na espuma das ondas e juntar-se às filhas do ar... Mas não desesperem! A Ariel ainda resta uma esperança! Ela ainda tem (mais) uma oportunidade para ganhar uma alma imortal: praticar boas acções durante... TREZENTOS ANOS. Desculpem??

4 comments:

Woman Once a Bird said...

E não continua a maior parte do pessoal (feminino, entenda-se) a fazer trocas destas? As "lindas figuras" e de boquinha caladinha (de preferência) é o que mais se cultiva.

Tamodachi said...

Viva o Andersen, que através desta sua história (que toda a gente interpreta com infantil, mas que na verdade é de terror, só que na altura não havia Freddy Kruggers e afins para pôr como personagens), estava a tentar avisar toda a gente que o Amor não deve ser cego e que acima de tudo não nos deve tornar burros! Que não nos devemos anular por qualquer marmanj@, e que a paga pelos nossos sacrifícios é, nada mais nada menos que ...um atestado de burrice crónica!!!
E claro que as histórias têm de ser violentas, uma vez que nós somos incapazes de aprender de outra forma que não seja o 8 ou o 80 (mais o 80, e mesmo assim...). Se a feiticeira tivesses escolhido cortar as unhas à Ariel, onde é que estaria o sacrifício horripilante, que nos faz pensar duas vezes?
O que me parece é que as histórias nunca foram violentas o suficiente, pois andam por aí muitas Arieis com língua, mas sem cérebro.

Ricardo Ferreira said...

Adorei o post. Eu amo a história da pequena sereia, cresci lendo o livro original (traduzido para português, porém não adaptado). E vi também o filme da Disney, e sabe que eu prefiro o conto original (no qual, aliás, a Ariel não tem nome, é apenas "pequena sereia" ou "sereiazinha" conforme a tradução)? Mas o filme também é muito bom.
Obrigado por postar, é sempr einteressante ler mais opiniões sobre esse conto.

Izanami said...

Ricardo: por acaso não vi o filme, mas conheço (razoavelmente) as adaptações (creio mesmo que desvirtuaram a história, com a necessidade de um happy end). E sabes que só mesmo quando vi escrito é que me apercebi do facto de, na história do Andersen, ela não ter nome? Então a Disney baptizou a pequena sereia... de Ariel....