Thursday, April 13, 2006

Why don't women go native...?

Esta questão foi colocada por uma pessoa que assistia a uma conferência sobre "Gender dimensions in transnational history and the history of West European colonialism" com a Gisela Bock - historiadora alemã, especializada em género e colonialismo.

Para mim, foi a primeira vez que ouvi a expressão. Mas pelo que entendi - e em conversa com a conferencista e com outras pessoas da assistência - cheguei à conclusão que a expressão "going native" (pelo que entendi é totalmente British..) significa uma apropriação dos hábitos culturais e sociais de uma outra cultura, através de um ligação afectiva (e implica um corte total com a cultura de origem). A pessoa que "goes native" torna-se, assim, um membro efectivo da comunidade da sua companheira. E se escrevi no feminino (companheira), foi porque todas as pessoas que estavam presentes concluiram que, de facto, não há qualquer registo de que as mulheres entrem na onda do "go native". No minímo estranho, pensei. Claro que outra dúvida surge: como é que podem dizer que as mulheres don't go native? Porque esta história é tão pejada de eurocentrismo que só se considera que alguém goes native, se nos referirmos a um ocidental que adopta a cultura alheia - não de outro ocidental, note-se - mas de alguém oriundo de áfrica, por exemplo, e não da África ocidentalizada...

Ou seja, quando falamos de going native, falamos num contexto de colonialismo e de um colonialismo Europeu em África. Ou seja, se uma portuguesa se apaixonar por um chinês e decidir ir viver para a zona mais recôndita da China comer carne de cão com pauzinhos , vestir quimono e enfaixar os pés não se incluirá no grupo.

Ora, a ser verdade que as mulheres, de facto, não tomam esse tipo de decisão (going native).. embora não seja certo - pelo menos, nenhuma pessoa presente pôde garantir que não existiram quaisquer casos; de resto, como se sabe, as histórias, e o papel das mulheres sempre foi tornado invisível ao longo dos séculos, portanto, se já é difícil documentar as histórias dos homens que tomaram essa opção - uma vez que é unânime que, alguém que "goes native" não deixa testemunhos.. mais difícil se torna no caso de uma mulher - só o será num contexto colonial e com o carácter europocêntrico que referi anteriormente.

Por certo que todos conhecemos casos de mulheres que adoptaram as culturas (o que incluiu a religião, entre outras coisas, mudando a forma de vestir, de estar e de olhar o mundo) das pessoas com quem decidiram partilhar a sua vida - a Mesquita Central de Lisboa tem alguns bons exemplos. Por outro lado, segundo os estereotipos (ou esterótipos, como quiserem), as mulheres são mais sentimentais, coitadas, o que lhes inibe a capacidade de raciocínio... (a qual, segundo este mesmo estereótipo, também não abunda nas suas pequeninas cabecinhas) e por isso, é que elas fazem as opções mais idiotas - tais como apaixonar-se pelos homens errados (e quando se apaixonam por mulheres.. isso então..) adiante...

Por isso, soa um pouco estranho que na história do colonialismo não haja um único caso documentado de uma mulher que tenha ido viver com uma tribo africana. Por um lado, as mulheres sofreriam de um controlo social muito mais forte que os homens, estando confinadas ao "espaço privado". Não teriam um contacto com os nativos da mesma forma que os homens, sendo que a apropriação e subjugação sexual (dos homens colonos face às mulheres nativas) sempre fez parte da estratégia de colonização havendo inúmeros relatos de violações, concubinatos e até mesmo matrimónios. O mesmo não se verificava quanto a mulheres da metrópole (ou dos reinos).

Alguém da assistência sugeriu que as mulheres brancas não estavam interessadas em optar por uma vida em que tinham ainda mais trabalho, uma vez que era um dado adquirido que os nativos "não trabalhavam" - bom.. dedicar-se-íam à caça? Não estou certa que os colonos partilhassem tarefas domésticas, pelo que penso que não seria a isto que ela se estaria a referir. Mas seriam as mulheres brancas assim tão racionais a ponto de pesar os prós e contras de "going native"? Estariam assim tão dependentes das redes sociais que temessem a excomunhão social?

A questão é que, por sinal, fosse pela falta de oportunidade - ou de contacto - as mulheres colonas (poder-se-à dizer que a colonização é/foi um fenómeno masculino?) não se deixavam apaixonar por nativos... ou seja, a pergunta que se coloca é... porquê?

3 comments:

Woman Once a Bird said...

Acho que não é uma questão de não se deixarem apaixonar... Simplesmente não tinham oportunidade. Nem as mulheres colonizadoras (embora a mulher não colonizasse absolutamente nada - ela seguia o colonizador), nem os colonizados.

Dirim said...

Será?

horvallis said...

Dirim,
Acho que a razão foi provavelmente que a repressão moral contra a mulher branca que fazia escolhas fora da comunidade branca era muito forte, e às vezes também violenta. Não era por razão, mas por causa da coercição social. Ela devia ser vista como a pior das prostitutas.
Em pequenas comunidades, a pressão dos grupos é sempre muito forte.
E provavelmente ela corria o risco de ser rejeitada por ambos os grupos, dos colonos e dos colonizados. Mas como você falou, houve com certeza casos mas que não foram documentados.