Monday, November 28, 2005

(Um) Domingo à tarde

Passeava pela rua. Aqui no bairro. Um bairro central e calmo da cidade. Havia pouco tráfego aquela hora. E comecei por ouvir uns gritos distantes de uma discussão. Olhei à volta, para as janelas mais próximas... os gritos ouviam-se mais perto. O semáforo pôs-se vermelho. Parou um carro. Apercebi-me que a discussão vinha de aí. Olhei. Ela chorava e olhava pela janela, enquanto lhe dizia qualquer coisa que não deu para perceber. Quanto a ele, aproveitou o semáforo para dar-lhe um sopapo e puxar-lhe os cabelos. Ouviu-se o gemido dela, sufocado pelo choro e pela janela do carro fechada. Ao mesmo tempo que o semáforo voltava a verde e vi como o carro se afastava.

Foto: www.sistemaeducativo.net

5 comments:

Dirim said...

Excelente texto, Ginko. Obrigada por partilhares :)

Ginko said...

A aflição é ver o carro a afastar-se e não saber o que fazer, porque aconteceu tudo em movimento... O carro, a surpresa, da violencia enquanto caminhava e me apercebia o que estava a acontecer, onde menos esperava.

Dirim said...

Sim,calculo que seja aflitivo... perguntei-me se terias mesmo presenciado isto... e, no entanto, aconteceu mesmo :( :( :(

Ginko said...

Agradeço a confiança no meu poder imaginativo. Mas agradeço-me a falta de imaginação para descrever estas situações, pelo que acrescento (sem me lembrar do nome de quem disse ou escreveu): "Não há ficção que ultrapasse a realidade"

Dirim said...

é que, no fundo, penso que não queremos que tenha acontecido, então é mais fácil pensar que foi imaginado porque retira parte do horror - apesar de não retirar o realismo. Espero que te recuperes. Testemunhar uma cena dessas é dose :(