Thursday, November 24, 2005

Rupturas Conjugais...ou velhas ideias...

Conheceram-se num chat. Não um chat convencional, mas uma espécie aparentada desses canais de comunicação.
Ele perguntou-lhe "onde é que gostas de dançar?" e ela respondeu.. "em Lisboa? No Lux". Ele retornou: "Lux? O que é isso?".
As amigas disseram-lhe logo: estás louca? É um bronco dos subúrbios saloios, que só vai às discotecas onde as pessoas vão para caçar e não para dançar.... Os amigos defenderam o espécime do mesmo género, alegando que era profundamente redutor eliminar as hipóteses de alguém só porque não conhece uma das discotecas mais famosas do país...ficaram chocados com aqueles critérios de selecção, porque não entenderam que o que a colocara de sobreaviso não fora o facto de ele não frequentar, mas de não saber o que era... Em qualquer dos casos, a conversa continuou com ela a explicar que o dito rapaz acabou por confessar que estava à beira de terminar um casamento. Ao que ela lhe anunciou:"cuidado! Um casamento não se termina assim". E pronto, foi este o ponto que me despertou a atenção. Porque, de repente, ao ouvi-las, parecia estar a ouvir a minha avó: "um casamento é uma coisa muito séria, e antes de se dar por terminado tem que se ter a certeza que se fez tudo para o salvar", ou "as pessoas hoje divorciam-se por qualquer coisa". Estas frases já as ouvi.. da minha avó...
E sobretudo o argumento: "vai sempre haver um dia em que vais acordar e vais achar que não faz sentido" - e então.. o que vais fazer se esse dia chegar, perguntei. "Vou esforçar-me, lutar para que volte a fazer sentido. Vou batalhar para nunca sentir que não faz sentido, mas se isso acontecer vou fazer para que volte a fazer sentido."
E fiquei ali a pensar que não devo ser nada conservadora, e que é normal que as pessoas que não me conhecem me vejam como uma maluca libertina... como é que há tanta gente tão jovem a defender o casamento como um valor sagrado quase intocável? "Sim", continuaram elas, "porque essa história do já não há amor... isso não é bem assim..." bom, sinceramente não sei como é, mas parece-me que a acontecer - de facto, o matrimónio já não fará sentido. Elas tinham algumas dúvidas. E foi aí que me senti fechada num túmulo. Porque sempre tive essa ideia do matrimónio: se deveria ser para sempre, porque raio as pessoas se casam tão cedo? E porque é que a coabitação não é um valor tão sagrado quanto o casamento? E porque raio é preciso assinar um contrato para legitimar uma relação? E porque é que um contrato não pode ser quebrado quando o motivo (supostamente o amor) já não existe? Deveremos nós sacrificar anos da nossa existência para salvar um matrimónio? Se o casamento deveria servir para enriquecimento e realização pessoal, porque razão me parece que algumas pessoas parecem ainda ter uma ideia que o elo que as liga - porque é legitimado - deve ser preservado, porque exigiu(e) sacrifícios, e sacrifícios pessoais? Acredito que os sacrifícios - quer sejam de ordem material e/ou pessoais - e que, eufemisticamente, são chamados de "cedências" devem ser sempre medidos e nunca sentidos como perda, pois a acontecer, então mais tarde ou mais cedo, irão aparecer à porta, a bater com força... e a reclamar o espaço que lhes foi tirado. Porque o que, aparentemente pode parecer uma concessão, quando já não faz sentido adopta um sentido de amputação de um aspecto de nós. E quando isso acontece, não só já é tarde para evitar sentir que foi @ outr@ @ culpad@ dessa perda, como acima de tudo, já é tarde, para voltar atrás e explicar que não queremos fazer essa concessão. As mulheres estão mais livres.. mas como lidam com essa liberdade quando não conseguem entender que a liberdade que sempre foi dada aos homens também pode ser delas?

1 comment:

Ginko said...

a coabitação não tem porque ter um sentido menos "sagrado" que o "sagrado matrimónio. e se esse sentimento é generalizado, sinto-me marginalizada ou menos respeitada pela decisão de coabitar e não formalizar um contrato. tenho o mesmo respeito e sinto a mesma responsabilidade pela pessoa com quem estou e pela decisão que tomámos, que creio terão as pessoas que celebram o contrato. o enriquecimento e realização pessoal entre 2 pessoas depende da forma como assumem essa união, em qualquer dos formatos. tudo oscila no tempo com as vontades. o amor não acaba(?) transforma-se(?)e encontrar a forma de viver sem o extase do ritual de acasalamento pode não resultar enriquecedor e menos uma realização pessoal. necessitamos da outra pessoa e da sua participação nesse percurso compartido "... quando começa a doer é sinal de que alguma coisa está em desequilíbrio...."